Onde há conflito, há uma oportunidade para as partes sentarem e negociarem uma solução, e os chefes de Estados tem a obrigação política de conversarem entre si sempre que um problema mais sério aparece, afirmou o presidente Lula esta terça-feira (8/3) durante sessão de abertura da 39ª Reunião de Cúpula do Mercosul, que está sendo realizada em San Juan, na Argentina. Num discurso improvisado, o presidente brasileiro afirmou aos colegas que sempre acreditou no poder do diálogo para a solução dos conflitos e que para restabelecer a harmonia entre Colômbia e Venezuela será preciso que os presidentes Hugo Chávez e Juan Manoel Santos sentem à mesa para conversar.
Não é possível que as pessoas não conversem (…) Em política, não se pode terceirizar o mandato que o povo nos deu. Em política, quem foi eleito precisa exercer o seu mandato e fazer o que tem que ser feito: negociar, conversar.
Lula lembrou aos presentes que mesmo enfrentando muita desconfiança e pessimismo, conseguiu negociar com o Irã um acordo para o seu programa nuclear, coisa que os países do Conselho de Segurança da ONU -- Estados Unidos, Inglaterra, Rússia, China e França -- afirmavam ser impossível. E o mesmo pode ser feito na disputa entre Colômbia e Venezuela. O presidente brasileiro aproveitou a oportunidade para dizer como se vingará do presidente colombiano Álvaro Uribe, que o criticou por declarações feitas sobre o conflito:
Ouça a íntegra do discurso:
Lula fez também uma pequena retrospectiva da evolução do Mercosul nos últimos anos, lembrando que é o presidente mais antigo entre os integrantes hoje do bloco econômico. Elogiou os avanços conquistados e o fortalecimento da parceria entre os países sulamericanos, algo que quando iniciou o seu mandato em 2002 não era visto com bons olhos por setores da sociedade brasileira, que preferia a Alca proposta pelos Estados Unidos.
Mas o tempo passou e hoje o Mercosul é uma grata realidade, elogiou Lula. Houve avanços econômicos e políticos, e os países se respeitam mais hoje. E além do grande fluxo comercial entre os países sulamericanos, o Mercosul promoveu também parceria estratégicas com países africanos e árabes. Falta ainda, lembrou o presidente brasileiro, o acordo com a União Européia, o qual perseguirá nos próximos cinco meses que terá a presidência do Mercosul. “É um sonho meu fazer esse acordo com a União Européia”, disse Lula.
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Presidente Lula com os ministros Celso Amorim (Relações Exteriores) e Guido Mantega (Fazenda) durante reunião do Mercosul em San Juan, na Argentina. Foto: Ricardo Stuckert/PR
Onde há conflito, há uma oportunidade para as partes sentarem e negociarem uma solução, e os chefes de Estados tem a obrigação política de conversarem entre si sempre que um problema mais sério aparece, afirmou o presidente Lula esta terça-feira (8/3) durante sessão de abertura da 39ª Reunião de Cúpula do Mercosul, que está sendo realizada em San Juan, na Argentina. Num discurso improvisado, o presidente brasileiro afirmou aos colegas que sempre acreditou no poder do diálogo para a solução dos conflitos e que para restabelecer a harmonia entre Colômbia e Venezuela será preciso que os presidentes Hugo Chávez e Juan Manoel Santos sentem à mesa para conversar.
Não é possível que as pessoas não conversem (…) Em política, não se pode terceirizar o mandato que o povo nos deu. Em política, quem foi eleito precisa exercer o seu mandato e fazer o que tem que ser feito: negociar, conversar.
Lula lembrou aos presentes que mesmo enfrentando muita desconfiança e pessimismo, conseguiu negociar com o Irã um acordo para o seu programa nuclear, coisa que os países do Conselho de Segurança da ONU -- Estados Unidos, Inglaterra, Rússia, China e França -- afirmavam ser impossível. E o mesmo pode ser feito na disputa entre Colômbia e Venezuela. O presidente brasileiro aproveitou a oportunidade para dizer como se vingará do presidente colombiano Álvaro Uribe, que o criticou por declarações feitas sobre o conflito:
Lula fez também uma pequena retrospectiva da evolução do Mercosul nos últimos anos, lembrando que é o presidente mais antigo entre os integrantes hoje do bloco econômico. Elogiou os avanços conquistados e o fortalecimento da parceria entre os países sulamericanos, algo que quando iniciou o seu mandato em 2002 não era visto com bons olhos por setores da sociedade brasileira, que preferia a Alca proposta pelos Estados Unidos.
Mas o tempo passou e hoje o Mercosul é uma grata realidade, elogiou Lula. Houve avanços econômicos e políticos, e os países se respeitam mais hoje. E além do grande fluxo comercial entre os países sulamericanos, o Mercosul promoveu também parceria estratégicas com países africanos e árabes. Falta ainda, lembrou o presidente brasileiro, o acordo com a União Européia, o qual perseguirá nos próximos cinco meses que terá a presidência do Mercosul. “É um sonho meu fazer esse acordo com a União Européia”, disse Lula.
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Reunião ampliada Brasil e Kuaite realizada no Palácio Itamaraty, em Brasília. Foto: Ricardo Stuckert/PR
A busca da paz no Oriente Médio e as oportunidades de investimentos entre empresas do Brasil e do Kuaite marcaram a reunião, nesta quinta-feira (22/7), entre o presidente Lula e o primeiro-ministro kuaitiano, Xeque Nasser al Sabah, em Brasília. Na reunião ampliada, que contou também com a participação de ministros dos dois países, o presidente Lula enfatizou que “o Brasil não vai desistir, junto com a Turquia, de construir a paz” naquela região do planeta.
Eu continuo convencido de que os membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas (ONU) erraram e um dia vão reconhecer isso publicamente.
Depois, em discurso por ocasião de almoço oferecido ao primeiro-ministro do Kuaite, o presidente brasileiro voltou a enfatizar o tema. Segundo ele, o Brasil tem muito a colaborar na pacificação dos povos. Lula aposta no diálogo como instrumento para construir a paz.
Devo dizer que os interesses brasileiros no Oriente Médio vão muito além dos aspectos comerciais. Encontram-se legitimamente fundamentados em nosso desejo de paz e estabilidade regional. Para a consecução desse fim, o Brasil tem a oferecer sua capacidade de contribuição construtiva. O bom diálogo que mantemos com ambos os lados do conflito e a numerosa comunidade de descendentes árabes no Brasil são importantes ativos de que dispomos para ajudar nas negociações.
Ouça aqui a íntegra do discurso:
Lula deu ênfase também aos laços comerciais entre Brasil e Kuaite. Segundo ele, o comércio bilateral deu um salto significativo passando de US$ 87 milhões, em 2002, para US$ 650 milhões em 2008. O presidente destacou ainda o empenho do governo brasileiro na promoção da Cúpula América do Sul e Países Árabes (ASPA), onde o comércio no âmbito destes dois blocos econômicos já alcança os US$ 20 bilhões. Por isso, Lula informou que em outubro uma missão de empresários brasileiros, sob liderança do ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), Miguel Jorge, visitará o Kuiaite como forma de
ampliar os negócios entre os dois países.
O presidente abriu caminho para que empresas kuaitianas invistam no Brasil, sobretudo, nos empreedimentos de infraestrutura do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), na Copa do Mundo 2014, nos Jogos Olímpicos em 2016 e na exploração do petróleo no pré-sal.
As companhias brasileiras terão interesse em explorar com empresas kuaitianas as oportunidades criadas pelo programa “Kuwait Vision 2035”. Queremos que saiba, por outro lado, que os investimentos kuaitianos encontrarão segurança jurídica e estímulo adequado no meu país. O Brasil é e continuará sendo um grande canteiro de obras nos próximos anos. O Programa de Aceleração do Crescimento, a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016 oferecem novas oportunidades de investimento e parcerias que devem ser aproveitadas em benefício mútuo.
As relações brasileiras com países árabes e a importância do Brasil nas negociações de paz no Oriente Médio foram os temas centrais da entrevista coletiva concedida pelo presidente Lula à Agência Nacional de Notícias Síria e ao jornal El Watan (Síria) na quarta-feira (30/6), no gabinete provisório da Presidência da República instalado no Centro Cultural Banco do Brasil, em Brasília.
Confira abaixo os principais trechos. Para ler a íntegra da entrevista, clique aqui.
Relações com a Síria
Nós sabemos que a Síria tem um papel extremamente importante, não apenas pela posição geográfica que a Síria ocupa no mundo árabe, mas pela relação da Síria com outros governantes árabes; pelo fato de a Síria ter quase um milhão de refugiados iraquianos dentro da Síria; pelo fato de a Síria ter uma boa relação com o Hezbollah, pelo fato da Síria ter uma boa relação com o Hamas, a Síria passa a ser um país muito importante em qualquer discussão sobre a paz no Oriente Médio.
O Brasil tem uma visão de que não é nenhum privilégio de nenhum país assumir a tutela da paz no Oriente Médio mas, sim, é da responsabilidade de todos que acreditam na paz, trabalham pela paz e querem construir a paz. É por isso que eu fui a Israel, é por isso que eu fui à Palestina, é por isso que eu fui ao Irã, porque eu acho que só vai haver paz no Oriente Médio quando todos os envolvidos se sentarem em torno da mesa. Não é um acordo de amigos entre Estados Unidos e a Direção de Israel ou a Direção Palestina, porque tem mais gente envolvida, tem mais gente envolvida. Se o Hamas não estiver à mesa de negociação, se o Hezbollah não estiver à mesa de negociação, se a Síria não estiver à mesa de negociação, se o Irã não estiver à mesa de negociação, será uma relação truncada. Além do que, é preciso colocar outros países que queiram construir a paz. É assim que eu vejo a importância de construção da paz, e é por isso que eu dou muita importância ao papel estratégico que a Síria tem na região.
Relações com países árabes
Depois da viagem que nós fizemos à Síria (em 2003), o meu ministro Celso Amorim já voltou cinco vezes à Síria, e nós já fizemos dois encontros [entre os países] árabes e a América do Sul: fizemos um encontro aqui em Brasília e fizemos um encontro em Doha no ano passado. Além de melhorar as relações políticas, melhoraram muito as relações comerciais entre o Brasil e os países árabes, sobretudo porque o Brasil é um país que tem uma população árabe muito grande, sobretudo a população síria aqui. Calcula-se que nós temos por volta de dois milhões ou três milhões de descendentes de sírios aqui no Brasil.
Pois bem, hoje a relação, ela está muito, mas muito melhor. Há um processo de confiança mútua entre muitos países árabes e o Brasil. Nós já não somos mais estranhos uns aos outros. Quando veio a crise econômica, ficou provado que estava certa a atitude do Brasil de diversificar as nossas relações políticas e comerciais. O nosso comércio cresceu muito com a África, cresceu muito com os países árabes, cresceu muito com o mundo asiático, cresceu muito na América Latina, e nós ficamos menos dependentes dos Estados Unidos e menos dependentes da Europa. Embora a nossa balança comercial continue crescendo, em média, 20% com os Estados Unidos e com a Europa, o fato concreto é que ela cresceu mais com os países árabes e cresceu mais com os países africanos e com a América Latina.
Negociação com o Irã
Olhe, o que aconteceu no caso do Irã, foi um caso inusitado. Primeiro, porque nenhum dos grandes líderes que colocaram em prática as sanções contra o Irã nunca conversaram com o Irã. Eu, depois de um encontro que tive em Nova Iorque com o Ahmadinejad, cheguei ao G-20, em Pittsburgh, encontrei Obama, encontrei Gordon Brown, encontrei Sarkozy, encontrei Angela Merkel, e nenhum deles tinha conversado com o Presidente do Irã. Eu dizia para eles: como é possível nós deixarmos de exercer o nosso papel de políticos, terceirizarmos a conversa através dos nossos assessores e não exercermos o papel de liderança que o povo nos deu na eleição? Era preciso que os principais líderes pegassem o telefone, ligassem para o Ahmadinejad e o convidassem para uma reunião. Ninguém quer porque, a priori, eles dizem que não acreditam no Irã, mas o Irã também não acredita neles. Então, alguém tem que começar essa conversa. Veja, eu não tinha procuração para negociar com o Irã. A ideia surgiu na visita do Ahmadinejad ao Brasil. Eu senti que tinha um espaço de diálogo, e a Turquia também sentiu que tinha um espaço de diálogo, até porque a Turquia era muito importante, porque seria a Turquia que iria receber os 1.200 quilos de urânio do Irã.
Acordo com o Irã
O acordo que nós fizemos com o Irã é o que está na carta do Obama. Estranhamente, depois que nós fizemos o acordo, que eles deveriam chamar o Irã para conversar, eles transformaram as sanções em uma questão de honra. Por quê? Porque eles estavam prisioneiros dos seus discursos, falaram demais e não tinham como voltar atrás. Uma semana depois, o Irã manda a carta – que eles não acreditavam que o Irã fosse mandar – para o Grupo de Viena, representado pelos Estados Unidos, pela França e pela Rússia, e eles fizeram as sanções antes de ler a carta! É o absurdo do absurdo!
Eu, sinceramente, fiquei decepcionado, fiquei decepcionado. Fiquei decepcionado porque eu não tinha nenhum compromisso de fazer um acordo com o Irã. Eu tinha compromisso de pactuar com a Turquia e com o Irã o compromisso de o Irã se sentar à mesa com a Agência, e o Irã concordou. Quem não concordou foram os membros permanentes do Conselho de Segurança, que queriam punir o Irã quase por vingança. Talvez um pouco de ciúme de que o convencimento do Irã foi feito por dois países que não são membros permanentes do Conselho de Segurança.
Então, eu acho que as pessoas precisam aprender que o exercício da democracia e o diálogo são muito complicados, mas são a melhor maneira de a gente construir os acordos e os consensos.
Papel brasileiro nas negociações de paz
Veja, o Brasil sozinho pode fazer muito pouco. Ali, era preciso saber o seguinte: nós sabemos que Israel tem nos Estados Unidos o seu mais importante interlocutor. Então, nós precisamos saber agora quem será o grande interlocutor da Autoridade Palestina? Quem será o grande interlocutor dos grupos que discordam da política de paz, pelo menos do Hamas e do Hezbollah? Quem goza da confiança da Síria? Quem goza da confiança do Irã? Todas essas pessoas têm que estar em torno de uma mesa com o limite mínimo de negociação. Agora, veja: não basta tomar decisão. É preciso tomar decisão, e a ONU exigir que as decisões sejam cumpridas, porque o que tem acontecido é que muitas vezes as decisões não são cumpridas e não há nenhum instrumento de pressão para que elas sejam cumpridas.
Quando o Brasil… Veja, eu estou deixando a Presidência dentro de seis meses. Então, não é um problema do Lula, é um problema da importância do Brasil e a importância da convivência pacífica de árabes e judeus no nosso país. O país… O Brasil tem uma cultura de paz e por isso nós achamos que o Brasil pode ajudar. Agora, parece que o conflito tem donos! Então, não pode entrar… Nós fizemos a primeira reunião de Annapolis e não fizemos a segunda ainda. E não fizemos por quê? Porque alguém não quer.
A magia do Brasil
Eu acho que o grande legado que o meu governo vai deixar para o povo brasileiro é que o povo mais humilde pode chegar onde eu cheguei e fazer igual ou mais do que eu. Então, eu acho que o sucesso do governo está ligado a isso. Eu trabalho mais do que os outros, brigo mais do que os outros, viajo mais do que os outros, fiscalizo mais do que os outros, cobro mais do que os outros, porque quando eu deixar a Presidência, eu vou morar a 600 metros de onde eu saí para ser presidente, e vão estar lá os trabalhadores da Volkswagen, da Mercedes, da Ford, e os dirigentes sindicais todos, perto da minha casa, me cobrando. Então, eu acho que isso explica o acerto do nosso governo.
Tendo em mente a necessidade de construir uma cultura de paz entre as nações, estreitando as relações e apostando no diálogo entre os povos, foi realizada no Brasil na semana passada o 3º Fórum Mundial da Aliança de Civilizações, que reuniu no Rio de Janeiro representantes de mais de 100 países e 14 chefes de Estado. O evento é uma resposta “aqueles países que pretenderam, um dia, dividir o mundo a partir de um suposto choque de civilizações”, afirmou o presidente Lula no programa Café com o Presidente desta segunda-feira (31/5).
É preciso que a gente tenha em mente a necessidade de construir uma cultura de paz entre as nações, estreitar as relações, apostando na continuidade do diálogo entre os diversos povos. O Brasil hoje tem competência, pela nossa própria história, história de tolerância, história de igualdade de oportunidades, e nós sabemos que todos precisam ter essas oportunidades, e são peças fundamentais para um ambiente de paz. O Brasil aposta no entendimento, e somente o diálogo é que vai fazer com que a gente cale o barulho das armas.
Lula falou ainda em seu programa de rádio sobre a participação da Seleção Brasileira na Copa da África do Sul:
Dedicarei meu tempinho na hora do jogo para poder assistir e torcer pelo Brasil, e esperar que a gente possa ganhar mais uma vez. Eu só posso desejar aos jogadores toda a sorte do mundo, que aqui tem muita gente torcendo por eles, muita gente.
O presidente em exercício José Alencar elogiou o papel desempenhado pelo Brasil no Irã, contribuindo para a resolução do impasse em torno das questões nucleares envolvendo aquele país. Para Alencar, o Brasil repete uma tradição de primar pela paz e pelo diálogo.
A manifestação de Alencar sobre o tema ocorreu após solenidade de comemorações dos 23 anos do Hospital das Forças Armadas (HFAB), realizada em Brasília nesta quarta-feira (19/5).
Para Alencar, o Irã tem direito a um crédito que lhes assegure tempo para cumprir o que foi acordado. “O trabalho do Brasil é admirável sob todos os aspectos”, reiterou. Ele acredita que apesar do impasse, vai permanecer o bom-senso. Perguntado se a decisão dos Estados Unidos de manter as sanções contra o Irã não isolaria o Brasil, Alencar avalia que é muito cedo para fazer essa afirmativa. “E mesmo se tivesse, estaria isolado pelo defesa do diálogo e da paz”, enfatizou.
O Brasil será uma grande potência econômica e política e está pronto hoje para receber investimentos estrangeiros e incentivar empresas nacionais a destinarem recursos em negócios no exterior, afirmou o presidente Lula durante discurso em almoço com empresários espanhóis realizado nesta quarta-feira (19/5) em Madri (Espanha). Lula disse ainda que o Brasil terá cada vez mais importância no cenário político internacional, citando como exemplo a intermediação brasileira no acordo sobre o programa nuclear iraniano, firmado na segunda-feira (17/5) em Teerã. O problema, afirmou Lula, era fazer o Irã aceitar a negociação – e isso foi feito. “Agora depende do Conselho de Segurança da ONU”, disse.
Sobre o conflito no Oriente Médio, o presidente brasileiro criticou o monopólio das negociações por poucos países. Para Lula, é preciso fortalecer a ONU e instituir uma nova governança global, levando em consideração a participação de países africanos, latinoamericanos, Índia e Japão, entre outros.
Ouça aqui a íntegra do discurso:
Em seu discurso, Lula afirmou que “se fizermos o óbvio e apenas o óbvio, seria mais fácil governar o mundo”, lembrando por exemplo que o Brasil se dizia ‘capitalista’, mas no País não havia crédito. Bancos públicos como o BNDES dificultavam ao máximo o empréstimo, o que hoje não mais acontece, disse o presidente brasileiro . O mesmo ocorria com financiamentos da casa própria.
As medidas adotadas pelo governo brasileiro nos últimos anos permitiram retirar 50 milhões de pessoas da pobreza, destacou Lula, transformando “cidadãos que eram marginalizados” em “consumidores”. A auto-estima da população aumentou juntamente com a economia brasileira e essas mudanças no País ocorridas nos últimos anos permitem que hoje o Brasil esteja pronto para estreitar parceria com a Espanha, disse Lula em seu discurso.
O Brasil aprendeu a ser sério. Houve tempo que ninguém acreditava no Brasil. Hoje, a comunidade internacional percebe que o Brasil tem previsibilidade. Quero dizer para os empresários espanhóis que acreditem no Brasil, que invistam no Brasil.
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No voo de volta ao Brasil, conversamos com o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, sobre o acordo firmado na segunda-feira (17/5) entre Irã, Brasil e Turquia para o enriquecimento do urânio iraniano com fins pacíficos. O ministro está convicto de que o acordo dá as condições necessárias para se evitar novas sanções ao Irã e comemorou a vitória da diplomacia sobre a pressão. “Capacidade de persuasão do Brasil e da Turquia foi mais eficiente do que a linguagem da pressão”, disse Amorim.
Para o chanceler brasileiro, os parágrafos do acordo que dizem respeito à troca do urânio iraniano -- depósito de 1.200 quilos de urânio levemente enriquecido na Turquia e recebimento, até um ano depois, de 120 quilos de urânio enriquecido a 20% -- são os mais importantes, por ser “um instrumento fundamental para a criação de confiança e abrir o diálogo”.
Celso Amorim frisou ainda que o acordo prevê a continuação das negociações e faz questão de destacar que é a primeira vez que o Irã aceita depositar seu urânio num terceiro país (no caso, a Turquia) e assumir por escrito seus compromissos com a Agência Internacional de Energia Atômica (AEIA).
Eu acho que não há fundamento algum para novas sanções à luz do acordo. Não sou dono da cabeça de ninguém, mas eu acho que estão dadas as condições para a solução do caso do programa nuclear iraniano.
Descrito pelo próprio jornal espanhol como “um dos políticos mais carismáticos, admirados e surpreendentes do último meio século”, o presidente Lula disse ao El País, em entrevista publicada no último domingo (9), que a geopolítica mundial já não é mais a mesma, que os países em desenvolvimento adquiriram mais peso e que, por isso, as relações políticas internacionais precisam acompanhar a nova realidade. Sob o título “Lula: O carnaval e não a guerra”, a entrevista aborda a reforma da Organização das Nações Unidas e do Conselho de Segurança, entre outros temas.
“O chamado mundo desenvolvido tem que compreender que a geopolítica mudou. A democratização da África e o crescimento de países como China, Índia e alguns da América do Sul, sugerem uma nova dimensão. Eu não quero a guerra, sou um homem de diálogo, e na questão nuclear o Brasil tem uma política muito definida. Quero esgotar até o último minuto as possibilidades de um pacto com o presidente do Irã para que seu país possa continuar enriquecendo urânio, tendo nós a tranquilidade que ele só o usará para fins pacíficos. Meu limite são as decisões da ONU, a qual, aliás, pretendo mudar porque tal como está representa muito pouco. Por que o Brasil não é membro do Conselho de Segurança? Por que não é a Índia? Por que não há nenhum Estado africano? Se a ONU continua assim débil, sem representatividade, com países com direito de veto, nunca vai servir corretamente à governança global que precisamos”.
Na entrevista exclusiva, concedida dia 9 de abril na sede provisória da Presidência, Lula fez uma reflexão sobre o exercício do poder à luz de conceitos políticos como “esquerda” e “direita”. “Eu nunca gostei que me enquadrassem, menos ainda ao assumir a Presidência. Um chefe de Estado não é uma pessoa, é uma instituição, não tem vontade própria todo santo dia, tem que levar a cabo os acordos que sejam possíveis. Aprendi isso no poder e creio que foi bom para o Brasil. Não pode ser que eu goste de um presidente porque é de esquerda e de outro não, por ser direitista. Me dei bem com Aznar, e me dou bem com Zapatero; tenho que me relacionar com Piñera, do Chile, da mesma forma que com Bachelet. No exercício do poder sou um cidadão, como diria?, multinacional, multiideológico, não?”.
A poucos meses de terminar seus dois mandatos, o presidente fez também um balanço do seu governo.
“Hoje só o Banco do Brasil tem mais crédito que todo o país quando eu cheguei ao poder. De modo que quando eu deixar a presidência, teremos criado mais de 14 milhões de postos de trabalho em oito anos. Só a China e a Índia podem competir com uma realidade assim”. E emendou que o Brasil venceu a crise econômica mundial “porque teve coragem de enfrentar a crise, em vez de se queixar: fazendo investimentos, destravando a atividade de setores chave da economia, empreendendo muitas obras públicas. Se o Brasil mantém nos próximos cinco anos uma política fiscal e monetária séria, investimentos e controle da inflação, tem tudo para se transformar numa potência respeitada no mundo. Se a economia continuar crescendo entre 4,5% e 5,5%, em 2016 pode ser a quinta economia mundial”.
Um dos grandes desejos do presidente Lula, para quando deixar a Presidência no Brasil, é viajar pelo continente africano de ônibus, conhecendo a realidade local, conversando com as pessoas e os governantes, procurando soluções para os seus principais problemas. Seria quase uma reedição das Caravanas da Cidadania que promoveu no Brasil em 1993 e 1994, quando era candidato à Presidência. A revelação foi feita semana passada em entrevista concedida à TV libanesa LBC.
Pretendo dedicar um pouco do meu aprendizado para ver se presto um serviço à África. É só sonho, por enquanto, não tenho nada construído, mas eu por exemplo sonho em pegar um ônibus num país africano e atravessar a África, conversando com as pessoas e conversando com os governantes. Vamos ver se há condições de fazer.
Também falou sobre a popularidade de seu governo, a sucessão presidencial deste ano, o combate à corrupção e à fome, a paz no Oriente Médio e a nova ordem econômica mundial, entre outros temas.
Para ver a íntegra da entrevista em vídeo, clique aqui (divido em 6 partes).
Ao ser convidado pelo entrevistador a dar uma mensagem ao povo brasileiro, o presidente Lula se emocionou ao afirmar que, ao deixar a Presidência, sabe que vai encontrar muitos companheiros e amigos “porque eu não perdi a minha relação com meus companheiros”.
Com lágrimas nos olhos, disse:
Eu sei o quanto nós sofremos para chegarmos na Presidência da República, eu sei o quanto nós fomos atacados, eu sei depois o quanto as pessoas mentiram a respeito do nosso governo. Tinha gente que pensava que a gente tinha acabado para a política. E nós vamos chegar ao final do nosso governo com uma performance eu diria inusitada na história política desse País. Isso me dá muito orgulho. Eu, se não fizer mais nada, se eu morresse agora, o povo brasileiro teria aprendido uma lição. Sabe aquela frase do Obama ‘Nós podemos’? Aquela frase é do povo brasileiro: Nós podemos. E quando o povo quer, o povo pode fazer muito mais. Eu sou apenas isso, eu sou a cara do que é possível um cidadão, que acredita na luta, fazer.
Ouça aqui a íntegra da entrevista:
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SEGREDO DA POPULARIDADE
O segredo da nossa popularidade são os acertos das políticas públicas, das políticas sociais e da política econômica que estamos colocando em prática no Brasil. Eu tinha muita clareza de que quando o Brasil elegeu um torneiro mecânico para ser presidente da República, o Brasil tinha que dar certo porque se não desse certo iria demorar mais 100 anos para um trabalhador, um operário chegar à Presidência da República. Então eu trabalho todo esse tempo com a cabeça muito firme, com uma convicção de que o Brasil tem que dar certo, que o povo tem melhorar de vida, para que a gente possa provar à sociedade brasileira, aos trabalhadores, aos intelectuais, aos empresários, ao mundo, que um operário saído de dentro de uma fábrica pode governar um país do tamanho do Brasil. E as coisas deram certo.
ELEIÇÕES 2010/SUCESSÃO
Eu tenho uma candidata. E essa candidata obviamente que me ajudou a elaborar o programa e portanto é co-participante do sucesso que o governo vive no momento. Eu a indiquei porque é uma pessoa da maior capacidade, uma pessoa com capacidade de gerenciamento extraordinária, uma pessoa de uma lealdade fantástica e uma pessoa que está gabaritada para dar continuidade, aprimorar, melhorar e fazer mais do que nós fizemos nesses oito anos. Por que? Porque o paradigma que ela tem para começar a trabalhar é diferente do que tive para começar a trabalhar em 2003. O Brasil está melhor – está melhor na educação, está melhor na saúde, está melhor no emprego, está melhor no salário, na distribuição de renda, a economia brasileira está melhor, o Brasil é mais respeitado no mundo hoje. Então, a pessoa que vier depois de mim vai pegar um Brasil muito mais estruturado, muito mais preparado do que o Brasil que eu herdei. E eu estou convencido de que, quem quer que seja que ganhe as eleições para presidente no Brasil, vai pegar um Brasil muito melhor e portanto pode fazer mais. E eu tenho também a convicção que é a minha candidata quem vai ganhar as eleições.
FALTA DE EXPERIÊNCIA DA CANDIDATA DILMA ROUSSEF
É o que falavam de mim. ‘O Lula nunca governou’, ‘O Lula não tem experiência’, ‘O Lula não fala inglês’, ‘O Lula não tem diploma universitário’, falaram isso de mim durante 12 anos. Até que um dia o povo falou ‘deixa eu dar uma chance para esse brasileiro’ e me deu a chance. E era o que eu precisava para provar que nós estávamos preparados para montar uma boa equipe e estávamos preparados para fazer uma boa governança no Brasil. (…) Acho que a ministra Dilma já venceu muitos preconceitos, a doença dela não existe mais, descobriu no começo e resolveu o problema, e ela está do ponto de vista intelectual e do ponto de vista gerencial, do ponto de vista administrativo ela está perfeita para governar o Brasil. E eu acho que ela é a grande possibilidade que nós temos de dar continuidade. Não é que eu tenho certeza de que ela vai ser eleita, porque primeiro eu tenho que respeitar a vontade do povo brasileiro no dia das eleições. Eu tenho a convicção de que ela pelo fato de ter as melhores condições de governar o Brasil, pelo fato de ela ter as melhores condições de dar continuidade ao que nós estamos fazendo, ela tem mais chances de ganhar as eleições.
COMBATE À CORRUPÇÃO
A certeza que o povo brasileiro tem é que nunca na história do Brasil um governo trabalhou tanto para apurar as denúncias de corrupção como o nosso governo. Nunca. Antigamente era fácil não aparecer muita corrupção no jornal porque você ficava jogando ela para debaixo do tapete. Nós simplesmente duplicamos o número de policiais federais, duplicamos o orçamento do Ministério da Justiça, para que a gente pudesse investir em inteligência, para que a gente pudesse investigar. Nós melhoramos e qualificamos a Controladoria-Geral da República e 90% das denúncias são feitas pelo governo. É a CGU quem faz a investigação em cada Ministério, em cada obra, que manda para o Tribunal de Contas da União (TCU) e que manda para a Polícia Federal. Portanto grande parte das denúncias de corrupção elas são feitas por nós.
LEI DE ANISTIA
O problema não é ser contra ou ser a favor. O problema é garantir que este País tenha sua história contada da forma mais verdadeira possível. Ninguém quer fazer caça às bruxas, ninguém quer ficar remoendo o passado. Agora, é muito difícil você querer que uma mãe, que perdeu seu filho e não sabe onde ele está, não queira encontrar o corpo de seu filho para enterrar. Então é por isso que estamos propondo a Comissão da Verdade, que vai ser aprovada pelo Congresso Nacional da forma mais democrática possível. Nós não queremos mexer na lei da Anistia, ela foi aprovada por consenso no Congreso Nacional, o que nós queremos apenas é contar ao Brasil o que aconteceu da forma mais verdadeira possível. Ninguém efetivamente tem que ter medo da Comissão da Verdade, ninguém tem que ter medo da verdadeira história – quem errou, pagou. É assim que a gente consolida a democracia no País. Eu não quero morrer num País em que sua história tenha sido contada pela metade, eu quero que sua história seja contada em seu todo.
IRÃ E PAZ NO ORIENTE MÉDIO
Eu acho que a guerra não conduz a nada, conduz a destruição, e eu sou um homem de paz. Como eu acredito que nós temos que ter argumento para mostrar ao mundo, com muita autoridade moral, aquilo que o Brasil fez. O Brasil é o único país do mundo que tem na sua Constituição a proibição de armas nucleares. O que eu quero para o Irã é o mesmo que eu quero para o Brasil. Eu quero dizer para o presidente Ahmadinejad que ele deveria concordar com a proposta da Agência (Internacional de Energia Atômica – AEIA), que propôs a ele um determinado rito de enriquecimento de urânio, que eu acho que era mais importante. Até para que a gente possa continuar avançando no mundo diplomático.
Qual é a minha preocupaçao? A minha preocupação é que o bloqueio ou as sanções que a ONU quer impor não vai trazer nenhuma solução. Vai apenas trazer radicalização. Como eu acredito na política, como eu acredito no diálogo, eu vou ao Irã conversar com o presidente Ahmadinejad. Conversamos com o primeiro-ministro da Turquia que tem a mesma posição política nossa, conversamos com Israel, com Palestina. (…) Por isso eu quero conversar com todos os interlocutores, porque também não pode ser primazia desse ou daquele país cuidar da paz. Se há 20, 30 ou 40 anos, os interlocutores que estão negociando não conseguem a paz, eu acho que é preciso colocar mais interlocutores, colocar gente nova, outros discursos, outras propostas, para que a gente possa chegar a um acordo. É nisso que o Brasil acredita. (…) Parece que tem gente que tem ciúmes que o Brasil esteja interessado em participar de conversas porque entendemos que temos argumentos sobretudo pela harmonia em que vivem no meu País árabes e judeus. Esse país é exemplo de convivência harmônica da comunidade árabe e da comunidade judaica. Esse exemplo eu quero levar para o mundo.
REFORMA DA ONU
O Brasil tem brigado para que se faça uma reforma no Conselho de Segurança da ONU. O Conselho de Segurança da ONU hoje representa, sobretudo os membros permanentes do Conselho de Segurança, a geografia política de 1948. Não representa a geografia política de 2010. É preciso que a África esteja representada, o Brasil esteja representado – e outros países da América Latina -, a Índia esteja, a Alemanha esteja, o Japão, que a África possa ter três representantes, para que você tenha gente que possa representar dignamente a nova geopolítica do mundo.
ATUAÇÃO BRASILEIRA NO EXTERIOR
O Brasil não tem vocação imperialista. O Brasil tem uma vocação de construir parcerias nas suas relações bilaterais e nas suas relações internacionais. Nós acreditamos no funcionamento das instituições multilaterais e por isso eu digo sempre que não adianta o Brasil crescer se os países vizinhos não crescerem. É preciso que a gente cresça junto. É preciso que cresça o Brasil, mas cresça a Argentina, o Paraguai, o Uruguai, a Venezuela, a Bolívia, a Colômbia, o Equador, o Chile, todos crescendo, todos terão o que distribuir para seu povo. É assim que nós trabalhamos e é por isso que o Brasil tem um forte investimento em infraestrutura em toda a América do Sul, porque nós queremos fazer um processo de integração com rodovias, ferrovias, telecomunicações, energia, para que a gente possa ser um continente forte e um continente rico.
NOVA ORDEM MUNDIAL
Quando foi feita a primeira reunião do G20, todos os países estavam de acordo de que era preciso discutir uma nova ordem econômica mundial, de que era preciso controlar o sistema financeiro, de que era preciso acabar com os paraísos fiscais, de que era preciso fazer um certo ordenamento na política cambial para que todos os países pudessem ter um certo equilíbrio. Que a gente defendesse a liberdade de um livre comércio de verdade, que a gente mudasse a forma de ser do FMI e do Banco Mundial, com uma nova organização, mais países participando. Tudo isso ainda não aconteceu. O meu ministro estará participando nesses próximos dias da reunião do G20 financeiro e eu estarei no Canadá para discutir a reunião do G20 político. E aí é que nós vamos fazer um balanço, o que aconteceu efetivamente? O Brasil fez a lição de casa. O Brasil praticou o livre comércio. Por isso que a economia brasileira cresceu, porque em vez de fechar a economia, nós abrimos crédito, os bancos públicos brasileiros têm uma importância muito grande, no financiamento de casa, no financiamento de carro, no financiamento de empresa.
COMBATE À FOME E À POBREZA
Eu estou muito orgulhoso porque certamente o Brasil vai cumprir todas as Metas do Milênio determinadas pela ONU. Isso para mim é motivo de orgulho. Segundo, porque o que nós estamos fazendo poderia ter sido feito há 50 anos. Veja uma coisa interessante: em 100 anos a elite brasileira fez apenas 140 escolas técnicas profissionais. Eu em oito anos vou fazer 214. Ou seja, em oito anos eu vou fazer uma vez e meia o que eles fizeram em um século. Nós estamos fazendo 14 universidades novas, nós criamos um programa chamado ProUni que já colocou na universidade este ano 726 mil alunos pobres da periferia, fazendo universidade. Já fizemos 105 extensões universitárias. Portanto o Brasil nunca teve a quantidade de jovens com perspectiva de estudar e se formar como está tendo agora. É por isso que eu acredito que a próxima geração será altamente mais qualificada que a minha geração. E isso me deixa muito feliz porque significa que o Brasil se encontrou com o seu caminho e acho que o povo brasileiro merece o que está acontecendo no País.
LIÇÕES DA POLÍTICA
Aprendi muito com as minhas três derrotas em eleições (presidenciais). E agora aqui no governo eu consegui o meu doutorado. Porque o que eu aprendi aqui no governo vai me permitir poder não só ajudar outras pessoas, mas eu quero viajar o continente africano, a América Latina, os países mais pobres, tentando colocar a nossa experiência, o sucesso da economia brasileira para que outros países sigam um caminho parecido. Porque muitas vezes os dirigentes ficam discutindo que não tem dinheiro, mas o problema não é só dinheiro. O problema é o seguinte: o pouco dinheiro que você tem, como é que você distribui ele de forma justa. Como é que você faz com que esse dinheiro chegue na mão de todos? Quando eu criei o Bolsa Família no Brasil, a elite brasileira dizia que era esmola. Quando veio a crise econômica, quem sustentou o Brasil foi o povo pobre que consumiu mais do que a classe A/B. As classes D e E consumiram mais do que as classes A e B. Ou seja, enquanto os mais ricos se acovardaram, o povo pobre foi ao shopping e segurou a economia brasileira.
VIDA PÓS-PRESIDÊNCIA
Eu não sei o que vou fazer. Uma coisa eu digo para você que eu gostaria de fazer: visitar o Líbano sem ser presidente da República. Para conhecer o Líbano sem o aparato de segurança, conhecer todas as cidades, comer um bom ‘charuto’, um bom kibe, quem sabe eu faça isso? Mas eu pretendo dedicar um pouco do meu aprendizado para ver se presto um serviço à África. É só sonho, por enquanto, não tenho nada construído, mas eu por exemplo sonho em pegar um ônibus num país africano e atravessar a África de ônibus, conversando com as pessoas, e conversando com os governantes. Vamos ver se há condições de fazer. Quando eu terminar o mandato, eu já estarei com 65 anos. E quando a gente vai ficando depois dos 60, cada ano vai diminuindo um pouco o ímpeto da gente em fazer as coisas. A idade vai pesando. Mas eu me considero ainda com muita energia para fazer muita coisa. Eu sou político por natureza, não vou parar de fazer política, a única coisa que eu não quero é ficar dando palpite no governo aqui no Brasil. Quem ganhou vai governar, eu vou cuidar de outras coisas.
Rei morto, rei posto. Não existem exemplos na história de um ex-presidente ficar dando palpite na vida do novo presidente. Não dá certo.
O QUE DIRÁ AO POVO NA DESPEDIDA
Eu diria o seguinte: o meu maior orgulho ao deixar a Presidência da República, ao descer a rampa do Palácio do Planalto, chamar todas as pessoas que estarão lá de companheiros. Tenho consciência de que vou voltar para onde eu saí. Eu tenho consciência de quem são os meus amigos verdadeiros, quem são os meus amigos do mandato – se bem que alguns amigos do mandato se tornaram amigos verdadeiros -, mas eu sei onde está meu mundo. Esse é o maior legado meu. É poder encontrar um companheiro e falar ‘Boa tarde’ ou ‘Boa noite, companheiro’ e ser tratado como companheiro. E eu acho que vou conseguir isso, porque eu não perdi a minha relação com os meus companheiros. (lágrimas nos olhos). É porque sempre uma coisa difícil, eu sei o quanto nós sofremos para chegarmos na Presidência da República, eu sei o quanto nós fomos atacados, eu sei depois o quanto as pessoas mentiram a respeito do nosso governo. Tinha gente que pensava que a gente tinha acabado para a política. E nós vamos chegar ao final do nosso governo com uma performance eu diria inusitada na história política desse País. Isso me dá muito orgulho. Eu, se não fizer mais nada, se eu morresse agora, o povo brasileiro teria aprendido uma lição. Sabe aquela frase do Obama ‘Nós podemos’? Aquela frase é do povo brasileiro: Nós podemos. E quando o povo quer, o povo pode fazer muito mais. Eu sou apenas isso, eu sou a cara do que é possível um cidadão, que acredita na luta, fazer.
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