Construir uma ampla frente pela reforma política no País e trabalhar pela exportação dos bons resultados das políticas sociais brasileiras para países da América Latina, Caribe e África são duas das prioridades do presidente Lula para quando deixar o governo, a partir de janeiro de 2011, segundo o próprio revelou em entrevista exclusiva à revista IstoÉ publicada na edição desta semana. Lula voltou a negar que pretenda se candidatar a um cargo na ONU ou no Banco Mundial, e afirmou ainda que o principal legado que leva dos oito anos que comandou o País é a relação que estabeleceu com os movimento sociais.
Todas as políticas públicas que nós colocamos em prática é resultado de milhares de pessoas participando nos municípios, nos estados, até chegar aqui. Então, esse é o legado que eu acho que nós vamos deixar, que nenhum presidente vai ter coragem de mudar, nenhum presidente.
Na entrevista, que ganhou a capa da revista, o presidente Lula falou ainda de sua popularidade, de eleições presidenciais, Irã, Oriente Médio e reforma da ONU. Selecionamos alguns dos principais trechos da íntegra da entrevista, confira:
Frente ampla para reforma política
Quando eu deixar a Presidência eu vou ter 65 anos, eu ainda tenho muita contribuição para dar, ainda tenho muita contribuição para dar ao país. Eu sonho na construção de uma frente ampla no Brasil, juntar forças políticas aqui, construir um programa comum, fazer reforma partidária, que eu acho que é condição sine qua non para a gente poder mudar em definitivo o Brasil. Nós temos que ter uma reforma partidária, e isso não é coisa, não é coisa de presidente da República, isso é coisa dos partidos políticos. E eu pretendo, de fora, ajudar o meu partido a organizar, com os outros partidos políticos, a ideia da reforma política.
Popularidade e vida pós-governo
Eu não estou pensando isso ainda. Eu tenho me recusado a discutir o que eu vou fazer e como vou fazer depois que eu deixar o mandato, porque eu não sei o que eu vou sentir. O meu medo, o meu medo é tomar uma atitude precipitada do que eu vou fazer, montar alguma coisa, e depois de seis meses eu descobrir que não era aquilo que eu queria fazer. Então, eu acho que quem deixa um mandato como eu vou deixar, numa situação, graças a Deus, muito confortável, tem que dar um tempo de maturação. Eu preciso de um tempo, quem sabe, quatro, cinco ou seis meses.
Legado
Olha, eu acho que o legado mais importante que eu vou deixar foi a relação que eu estabeleci com a sociedade. Eu, no meu governo, fiz 72 conferências nacionais. Fiz conferência de GLBT, fiz conferência de política, fiz conferência de comunicação, conferência de portador de deficiência física, conferência de hanseniano, conferência de negro, conferência de índio, conferência de tudo que você possa imaginar; conferência das cidades, conferência dos sem-teto, conferência de catador de papel. Todas as políticas públicas que nós colocamos em prática é resultado de milhares de pessoas participando nos municípios, nos estados, até chegar aqui. Então, esse é o legado que eu acho que nós vamos deixar, que nenhum presidente vai ter coragem de mudar, nenhum presidente.
Tem muitas coisas que me emocionam, porque foi um processo educativo, de a gente teimar que era possível fazer e a gente poder provar o seguinte: o Palácio de um governo não é apenas para receber príncipe, rainha ou presidente, é para receber do pé descalço ao cara que está de sapato alto. E essa foi a coisa rica do governo, ou seja, os sem-teto entrarem lá dentro e chorar, os cegos entrarem lá dentro, aprovar aposentadoria para hansenianos, que ficaram mais de 30 anos em colônia, e beijar cada um, e eles chorarem, porque nunca um presidente tinha encostado perto deles, possivelmente de nojo. Então, eu acho que esse é o grande legado.
O acúmulo de acertos nas políticas sociais que nós tivemos no Brasil precisa ser socializado. E eu quero socializá-las com quem? Eu quero socializá-las com os países da América do Sul e da América Latina, quero socializá-las com os países do Caribe, quero socializá-las com os países africanos – eu já tenho muitos convites de países africanos para ir lá mostrar a ideia, o que nós fizemos.
Cargo na ONU
Tem companheiros que falam: “Olha, Lula, você… é preciso ir para a ONU”. Eu tenho uma ideia diferente: eu acho que a ONU é uma instituição que tem ser dirigida por um burocrata, que tenha consciência de que ele é subordinado aos presidentes dos países, porque se você coloca alguém lá que, por coincidência, tenha mais força que alguns presidentes, fica, no mínimo, uma anomalia. Você fica com uma instituição criada para servir os países, com gente mandando mais… Aí, imagine se a moda pega e os ex-presidentes americanos resolvem ser secretários-gerais da ONU! Não dá certo!
Ancinav
Eu vou te contar uma história, como é que a gente… Governar é uma coisa engraçada. Uma vez, o Gilberto Gil propôs criar a Ancinav. Era uma proposta, era uma proposta e, de repente, a gente estava tomando porrada de todos os lados. De todos os lados a gente estava tomando bordoada. Então, eu reuni todos os ministros envolvidos naquilo – Justiça, Fazenda, Indústria e Comércio, Cultura –, e tinha mais uns três ou quatro – Secom, Comunicação – em uma mesa, esta mesa aqui – lá no Alvorada. Eu falei, companheiros, olha, eu estou vendo pela imprensa essa proposta da Ancinav aí, nós estamos apanhando muito e eu quero saber o seguinte: se todos nós estamos de acordo com a proposta que está na mesa. Foi fantástico. Nenhum ministro concordava com a proposta.
Jornalista: Nem o Gil?
Não, porque era uma proposta para debate, era uma proposta para debate, e surgiu como se fosse uma proposta acabada do governo. Então, eu falei: pelo amor de Deus, gente, alguém tem que comunicar à imprensa que está retirada a proposta. Se ninguém está defendendo a proposta, por que ela vai continuar? Então, isso são coisas de governo que ou você toma a decisão rapidamente ou você é engolido rapidamente.
Irã
O Ahmadinejad veio aqui, nós conversamos mais de duas horas, aí eu falei: se você… se for possível a gente avançar, eu mando o Celso Amorim ir muitas vezes lá. Como a Turquia também estava tentando, então, nós fomos. O Celso Amorim e o Ministro das Relações Exteriores da Turquia começaram a conversar, e a conversar com o Primeiro-Ministro do Irã, preparando a nossa ida lá. (…) Bem, aí foi chegando próximo de ir ao Irã, o Celso foi várias vezes lá, eu falei: Celso, é preciso dizer para o Ahmadinejad que eu não posso fazer uma viagem inútil.
(…) Eu nasci na política, meu filho, eu nasci. Eu, toda a minha vida, desde os anos [19]69, a minha vida foi negociar; perdi muita coisa, ganhei muita coisa, mas negociar é a arte maior de fazer política.
Novo Conselho de Segurança da ONU
O problema é o seguinte: se a ONU continuar fraca do jeito que está, vai prevalecer o unilateralismo, ou seja, a posição unilateral dos americanos vai continuar prevalecendo. Quando nós propusemos fortalecer a ONU, não é a entrada do Brasil, é a entrada do Brasil, é a entrada da Índia, é a entrada da Alemanha, é a entrada de dois ou três países africanos. É, uma coisa, uma coisa para que tenha mais representatividade. Você imagina o continente africano, com 53 países, não tem ninguém! E quantos tem, europeus? E, agora, tem mais a Alemanha, convidada especial. Ou seja, aquilo não é um clube de amigos.
Paz no Oriente Médio
No Oriente Médio, veja, no Oriente Médio, eu vou terminar dizendo isso, no Oriente Médio, na minha opinião, não haverá paz enquanto os americanos acharem que são eles os responsáveis pela construção da paz! Porque não vai haver? Porque ali você tem que saber o seguinte: quem é que tem força no Hezbollah? Quem é que tem força no Hamas? Qual é o papel do Irã? Qual é o papel do Catar, que é aliado dos americanos de um lado, e ajuda o Hamas de outro? Qual é o papel do Presidente da Síria? Ou você tem uma instituição que congregue todos esses países juntos, e essas organizações estabeleçam um ponto mínimo de acordo, ou nunca haverá paz.
O próximo presidente da República encontrará um Brasil mais sólido, justo e democrático do que o País era no dia 1º de janeiro de 2003, afirmou Lula em entrevista aos jornais Brasil Econômico e O Dia, publicada nas edições desta sexta-feira (23/7). “O Brasil está muito mais preparado para continuar dando um salto de qualidade”, disse o presidente, acrescentando que o País ganhou mais respeitabilidade internacional e autoestima interna. Esse é o seu maior legado para o próximo governo.
O maior desafio do Brasil para o futuro, afirmou Lula, é recuperar o tempo perdido na educação e em investimentos em pesquisa e tecnologia, e para isso espera que o Congresso Nacional tenha bom senso na discussão do novo marco regulatório do Pré-sal. Disse ainda que o próximo presidente brasileiro vai encontrar um País mais exigente, “porque o povo aprendeu a reivindicar”:
“Essa, essa, para mim, é a coisa extraordinária da democracia e da conquista da sociedade: ela está sempre querendo mais, sempre querendo mais, sempre querendo mais.”
Lula revelou que a sua maior frustração foi não ter conseguido fazer as reformas tributária e política no País. O presidente conversou também sobre seu futuro como ex-presidente, a nova politica externa adotada pelo Brasil, dando mais ênfase a países da América Latina e África, a paz no Oriente Médio, as contas públicas e segurança pública.
Confira abaixo os principais trechos da entrevista. Para ler a íntegra da entrevista, clique aqui.
Legado para o próximo presidente
Eu tenho a convicção de que nós vamos entregar um Brasil, no dia 1º de janeiro, infinitamente mais sólido, infinitamente mais justo, mais democrático, do que o país que eu recebi no dia 1º de janeiro de 2003. Do ponto de vista econômico, a situação está infinitamente melhor, o Brasil está estável, a economia está crescendo, nós temos reservas suficientes para enfrentar qualquer crise, tipo crise russa, tipo crise da Malásia, tipo crise do México, e mesmo a crise do subprime nós tivemos solidez para suportar essa crise. Os salários dos trabalhadores estão crescendo, ou seja, nesses oito anos de governo, todos os acordos salariais de 90% das categorias tiveram ganhos reais de aumento de salário. As classes D e E deram um salto de qualidade, cresceu muito a classe C no Brasil. A educação tem melhorado substancialmente, sobretudo…
A pobreza tem diminuído muito no Brasil. E, sobretudo, o Brasil ganhou respeitabilidade internacional e ganhou muita autoestima interna. Então, o Brasil está muito mais preparado para continuar dando um salto de qualidade. A minha tese é que se o Brasil continuar no ritmo em que ele está nos próximos seis ou oito anos, o Brasil estará entre as cinco maiores economias do mundo, já em 2016, por conta das Olimpíadas.
Brasil mais exigente
Quem chegar aqui, depois de mim, vai pegar um país com mais tranquilidade. Agora, vai pegar um país mais exigente, porque o povo aprendeu a reivindicar. Ontem, eu fiz uma reunião, ontem, eu fiz uma reunião… Vocês sabem que neste país presidente da República, nem ministro da Educação, nunca se reuniram com os reitores, nunca. De medo, porque eles imaginavam que os reitores vinham aqui para reivindicar, para pedir a autonomia das universidades. Eu, faz oito anos que presido o Brasil, e todo ano eu me reúno com todos os reitores do Brasil. Ontem, eu fiz a última reunião do ano para dar a autonomia universitária, que era o último compromisso que eu tinha com eles. Dei a autonomia universitária. Quando eu pensei que não ia ter mais reivindicação para apresentar, eles me apresentaram uma nova pauta de reivindicações. Essa, essa, para mim, é a coisa extraordinária da democracia e da conquista da sociedade: ela está sempre querendo mais, sempre querendo mais, sempre querendo mais. E vocês percebem isso no jornal de vocês. Vocês dão aumento de salário, vocês acham que o cara que pegou o aumento está feliz? Ele está feliz no primeiro mês, no segundo mês; no terceiro mês, ele já acha que aquilo já acabou, ele quer mais.
Desafios para o futuro
Veja, nós temos muitos problemas porque nós temos um século de atraso, na questão da educação. Por isso é que no Pré-sal a minha primeira proposta foi criar um Fundo para que a gente invista na educação, para que a gente aproveite o Pré-sal e a gente recupere o atraso do Brasil na área educacional e, sobretudo, na área de investimento em pesquisa e tecnologia. Ou seja, ciência e tecnologia, para nós, é condição sine qua non para o Brasil dar o salto de qualidade que nós precisamos.
Vida de ex-presidente
O Felipe González conta uma história que eu acho fantástica… ele acha que quando você é presidente, você é que nem vaso chinês: você coloca sempre no lugar mais bonito, para todo mundo ver. Quando você vira ex-presidente, você não sabe o que fazer com um vaso chinês. Ninguém sabe o que fazer com um ex-presidente, ninguém sabe. Ele pode virar um incômodo, ele pode virar um chato, ele pode virar um cara que lamenta a vida, ele pode ficar magoado, rançoso, pode ficar… Eu trabalho com a minha cabeça que eu quero ser o melhor ex-presidente do mundo. Eu não quero dar palpite em quem estiver governando, eu acho que é responsabilidade de quem governar pelos seus erros e pelos seus acertos. E aí, quando eu estiver na minha reflexão, certamente eu vou descobrir muita coisa que eu deveria ter feito e não fiz. Muita coisa.
Frustrações
Por exemplo, eu não consegui fazer a reforma tributária, e mandei dois projetos para o Congresso Nacional. Eu mandei… tem um inimigo oculto da reforma tributária dentro do Congresso Nacional, porque a primeira reforma tributária que eu mandei, eu mandei junto com 27 governadores de estado, foi no mês de abril de 2003. Eu fui ao Congresso Nacional entregar, junto com os 27 governadores. A última, que o ministro Guido Mantega foi entregar, tinha a concordância dos empresários, a concordância das lideranças políticas, a concordância do movimento sindical, a concordância dos empresários. Eu pensei que ia chegar lá e que ia ser votada em três meses. Até hoje não foi votada, porque deve ter um milhão de modelos de política tributária na cabeça de cada pessoa. Então, eu tenho essa frustração de não ter votado a política tributária, e também de não ter conseguido votar a reforma política. Eu sei que não era uma coisa do Poder Executivo, mas eu tenho um compromisso com a minha consciência.
A partir de 1º de janeiro eu não serei mais presidente da República, serei um militante do meu partido, e eu vou trabalhar muito neste país, junto aos partidos, para que a gente possa fazer uma reforma política necessária para fortalecer os partidos políticos, para acabar com a corrupção eleitoral, para evitar caixa-dois, para evitar, sabe…? Que as coisas sejam transparentes, que o Estado… que o financiamento da campanha seja público, transparente, que se decida quanto vale cada voto: é um real, são dois reais, são três reais, e cada partido vai receber proporcionalmente ao que teve e vai ter controle para fiscalizar isso. Então, eu tenho essa frustração de não ter conseguido, apesar de ter mandado também duas propostas para o Congresso Nacional, que não foram apreciadas, que não foram votadas. Então, essas são duas frustrações que eu tenho. Eu posso ter muitas outras e que eu vou… com o tempo é que a gente vai descobrindo as frustrações, das coisas que a gente não fez.
Nova política externa
Nós não podemos virar as costas para esses países e ficar olhando para a Europa, sem enxergar a África; ficar olhando para os Estados Unidos, sem enxergar o Oriente Médio, ou sem enxergar a América Central. Vamos estabelecer uma outra política. E aí, eu tenho orgulho de que eu fui o primeiro presidente a visitar quase todos os países árabes; o primeiro presidente, depois de dom Pedro, a visitar vários países, como o Líbano. Eu já visitei… é a oitava viagem minha à África. Nós saímos de 5 bilhões de balança comercial para 26 bilhões de balança comercial com a África. Isso porque o Brasil ainda tem uma política tacanha. O Brasil pode ser mais ousado com a África e, não o sendo, a China será, e não o sendo, a China será. E o Brasil tem facilidade, o Brasil tem mais carinho, tem mais apego, tem mais semelhança, tem… falamos a mesma língua em muitos países africanos.
Portanto, o Brasil tem que aproveitar esse potencial extraordinário de um continente que tem 800 milhões, e que estão aprendendo a viver na democracia, e que tem países crescendo a 7%, a 19%, a 8%. Ou seja, em vez de ficarmos preocupados com aquele que ainda está em guerra, vamos nos preocupar em consolidar aqueles que já estão construindo a democracia. Depois eu visitei… acho que eu sou o único presidente brasileiro que visitou todos os países da América Central, todos, sem distinção.
Oriente Médio
Quem é que disse que o Oriente Médio é um problema para os americanos cuidarem? Onde é que está escrito? Está na Bíblia? Está na Declaração Universal dos Direitos Humanos? Tem algum documento da ONU que diz que são os americanos que têm que cuidar do Oriente Médio? Não. É preciso construir um grupo de países que tenham a confiança de todos os que estão envolvidos na guerra, porque o problema não é o presidente Abbas e o Primeiro-Ministro de Israel, esses são duas personalidades. Mas quem vai cuidar do Hamas? Quem vai cuidar do Rezbollah? Quem vai conversar com a Síria? Quem vai conversar com o Ahmadinejad? Quem vai conversar com o Emir do Catar que, de um lado, é parceiro americano – tem até base americana lá – e, de outro lado, é aliado do Hamas? Quem é que vai colocar toda essa gente à mesa para tentar, a partir daí, encontrar a solução? Não é uma relação de um clube de amigos, em que o Presidente americano se reúne com o Primeiro-Ministro de Israel, e se reúne com o Primeiro-Ministro da Autoridade Palestina, e está resolvido o problema. Não está, porque para ser resolvido o problema é preciso saber se o Hamas concorda com um acordo de paz.
Liberdade democrática no Brasil
Quem é que pode se queixar que no Brasil não tem liberdade democrática? Quem é que pode? Vocês conhecem o mundo, vocês… Eu duvido que tenha lugar do mundo que a imprensa é mais livre do que no Brasil, duvido. Entretanto, nós fizemos uma conferência de comunicação, e grande parte da imprensa não compareceu porque achou que era uma coisa autoritária que o governo queria se meter. Quando um dirigente faz crítica a um jornal, é censura, não é crítica. É como se fosse o cidadão da imprensa o único que não pudesse receber nenhuma crítica no mundo porque são perfeitos. Tem até uma coisa engraçada. Nesses dias, um cidadão de uma instituição estrangeira aí (SIP) me fez uma crítica, ele tinha acabado de mandar uma carta para mim, para me homenagear, como o “democrata das Américas”. Ele deve ter esquecido que mandou a carta.
Conferências nacionais
O Brasil está tranquilo com relação à democracia. Já está provado, por atos e coisas, que este Estado é altamente democrático, e isso é um bem para o Brasil. Eu acho que esse é outro legado importante. Veja, eu fiz 70 conferências nacionais, eu fiz 70 conferências nacionais. Eu fiz conferência de segurança pública, eu fiz conferência de imprensa, eu fiz conferência de portadores de deficiência, eu fiz conferência de catadores de papel, eu fiz conferência de moradores de rua, eu fiz conferência de criança e adolescente, eu fiz conferência de aposentado, eu fiz conferência de índio, eu fiz conferência de negro, eu fiz conferência de mulher, eu fiz conferência do GLTB. Não tem um segmento da sociedade que eu não fiz conferência, para que a gente pudesse expressar o ponto de vista e dar subsídio para a construção das políticas públicas do nosso governo.
Microeconomia
Nós falamos muito de macroeconomia, não é? Quando a gente discute, quando o Guido Mantega vai a Nova Iorque, ou quando o Guido Mantega… o Meirelles vai a Basiléia, ou quando… Todos nós falamos da macroeconomia, da macroeconomia, mas no Brasil nós criamos uma coisa que caminha paralela à macroeconomia, chamada microeconomia, que é o que toca uma parte das coisas no Brasil, que muitas vezes, não aparecem nos meios de comunicação. Por exemplo, quando nós chegamos ao governo, nós tínhamos R$ 380 bilhões de crédito para o Brasil inteiro – isso em 2003 – R$ 380 bilhões de crédito. Hoje nós temos R$ 1,5 trilhão de crédito. Nós criamos o crédito consignado que ninguém acreditava. Eu nunca tinha visto um economista falar em crédito consignado. Nós criamos o crédito consignado dando como garantia para o banco a folha de pagamento do trabalhador.
Contas públicas
Tem duas coisas que eu queria que vocês soubessem que eu levo muito a sério, muito a sério: primeiro, as contas públicas. Eu sou casado há 36 anos e eu nunca fiz uma dívida na minha vida que eu não pudesse pagar. Eu, muitas vezes, eu fui acho que um dos últimos brasileiros modernos a ter uma televisão em cores, porque eu só comprei quando eu pude comprar e pagar. Eu só pude ter o meu carro quando eu tinha consciência de que eu não ia me apertar para pagar. E isso, assim, eu faço com o Brasil, Ricardo. Eu digo sempre para os meus amigos: eu não quero governar o Brasil, eu quero cuidar do Brasil. Cuidar, cuidar como eu cuido da minha família, cuidar como eu cuido do meu filho, não deixar a coisa desandar. Se, de vez em quando, você precisar apertar em um lugar, você aperta; mas se for preciso você desapertar em outro, você desaperta.
O Guido Mantega tem feito um trabalho extraordinário, o Meirelles tem feito um trabalho extraordinário. Eu tenho dito para eles: Não tem mágica na economia, e não tem política na economia. Não adianta, porque tem eleição: “Ah, não vai aumentar juros porque tem eleição, ou não vai fazer tal coisa porque tem eleição”. A eleição, para mim, é uma coisa muito passageira. Este país é eterno. E eu sei o que custa um país arrumado, porque eu estava dentro de uma fábrica quando este país estava desarrumado e eu tinha a inflação a 80% ao mês. Então, eu sei o que isso pesava no meu salário.
Segurança pública
Se tudo fosse resolvido criando um ministério, nós não teríamos problemas no Brasil. Os tucanos têm experiência de governar vários estados importantes e pouca experiência de cuidar de segurança, pouca experiência. Então, acho muito pobre que um candidato diga “eu vou criar um ministério”. Segundo, é importante – e eu não tenho os números aqui – mas o Franklin pode arrumar para vocês… a Maya pode arrumar para vocês, o que nós fizemos no Ministério da Justiça, o que significam as políticas que nós adotamos nos últimos três anos para ajudar os estados a reduzir o problema da crise com a segurança pública. Posso te dizer, sem ver… a Maya pode te dar. Não tem momento na história em que o governo federal colocou a quantidade de dinheiro que colocou nos estados para ajudar a segurança pública.
Pronasci e UPPs
Quando nós criamos o Pronasci, a gente fez uma revolução no conceito de segurança pública; quando a gente instituiu as Mães da Paz a gente criou uma outra revolução, que é fazer com que nas comunidades… Eu vou dar um exemplo: no bairro de Santo Amaro, em Pernambuco, que era o bairro mais violento, a violência diminuiu 70%. Porque o que é o Pronasci? O Pronasci, você chega lá, com as Mães da Paz, que são mulheres da própria comunidade, que vão tentar trabalhar os meninos que estão em área de risco. Você tem praça de esportes, você tem biblioteca, você tem, às vezes tem até 19 ações do governo federal em um único bairro. Você tem a polícia comunitária, que tem ajudado muito, mas muito a resolver o problema da segurança; e temos feito convênios com todos os estados. E esses dados, depois a Maya ou Franklin pode dar para vocês.
A segunda coisa que eu acho é que as UPP’s do Sérgio Cabral têm dado certo e é um modelo importante, é um modelo importante. Da mesma forma que é importante a chamada… Eu não sei como é o nome, mas, por exemplo, no Ceará também tinha uma ajuda do governo federal, aquela polícia comunitária que toma conta de um bairro.
Reunião ampliada Brasil e Kuaite realizada no Palácio Itamaraty, em Brasília. Foto: Ricardo Stuckert/PR
A busca da paz no Oriente Médio e as oportunidades de investimentos entre empresas do Brasil e do Kuaite marcaram a reunião, nesta quinta-feira (22/7), entre o presidente Lula e o primeiro-ministro kuaitiano, Xeque Nasser al Sabah, em Brasília. Na reunião ampliada, que contou também com a participação de ministros dos dois países, o presidente Lula enfatizou que “o Brasil não vai desistir, junto com a Turquia, de construir a paz” naquela região do planeta.
Eu continuo convencido de que os membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas (ONU) erraram e um dia vão reconhecer isso publicamente.
Depois, em discurso por ocasião de almoço oferecido ao primeiro-ministro do Kuaite, o presidente brasileiro voltou a enfatizar o tema. Segundo ele, o Brasil tem muito a colaborar na pacificação dos povos. Lula aposta no diálogo como instrumento para construir a paz.
Devo dizer que os interesses brasileiros no Oriente Médio vão muito além dos aspectos comerciais. Encontram-se legitimamente fundamentados em nosso desejo de paz e estabilidade regional. Para a consecução desse fim, o Brasil tem a oferecer sua capacidade de contribuição construtiva. O bom diálogo que mantemos com ambos os lados do conflito e a numerosa comunidade de descendentes árabes no Brasil são importantes ativos de que dispomos para ajudar nas negociações.
Ouça aqui a íntegra do discurso:
Lula deu ênfase também aos laços comerciais entre Brasil e Kuaite. Segundo ele, o comércio bilateral deu um salto significativo passando de US$ 87 milhões, em 2002, para US$ 650 milhões em 2008. O presidente destacou ainda o empenho do governo brasileiro na promoção da Cúpula América do Sul e Países Árabes (ASPA), onde o comércio no âmbito destes dois blocos econômicos já alcança os US$ 20 bilhões. Por isso, Lula informou que em outubro uma missão de empresários brasileiros, sob liderança do ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), Miguel Jorge, visitará o Kuiaite como forma de
ampliar os negócios entre os dois países.
O presidente abriu caminho para que empresas kuaitianas invistam no Brasil, sobretudo, nos empreedimentos de infraestrutura do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), na Copa do Mundo 2014, nos Jogos Olímpicos em 2016 e na exploração do petróleo no pré-sal.
As companhias brasileiras terão interesse em explorar com empresas kuaitianas as oportunidades criadas pelo programa “Kuwait Vision 2035”. Queremos que saiba, por outro lado, que os investimentos kuaitianos encontrarão segurança jurídica e estímulo adequado no meu país. O Brasil é e continuará sendo um grande canteiro de obras nos próximos anos. O Programa de Aceleração do Crescimento, a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016 oferecem novas oportunidades de investimento e parcerias que devem ser aproveitadas em benefício mútuo.
As relações brasileiras com países árabes e a importância do Brasil nas negociações de paz no Oriente Médio foram os temas centrais da entrevista coletiva concedida pelo presidente Lula à Agência Nacional de Notícias Síria e ao jornal El Watan (Síria) na quarta-feira (30/6), no gabinete provisório da Presidência da República instalado no Centro Cultural Banco do Brasil, em Brasília.
Confira abaixo os principais trechos. Para ler a íntegra da entrevista, clique aqui.
Relações com a Síria
Nós sabemos que a Síria tem um papel extremamente importante, não apenas pela posição geográfica que a Síria ocupa no mundo árabe, mas pela relação da Síria com outros governantes árabes; pelo fato de a Síria ter quase um milhão de refugiados iraquianos dentro da Síria; pelo fato de a Síria ter uma boa relação com o Hezbollah, pelo fato da Síria ter uma boa relação com o Hamas, a Síria passa a ser um país muito importante em qualquer discussão sobre a paz no Oriente Médio.
O Brasil tem uma visão de que não é nenhum privilégio de nenhum país assumir a tutela da paz no Oriente Médio mas, sim, é da responsabilidade de todos que acreditam na paz, trabalham pela paz e querem construir a paz. É por isso que eu fui a Israel, é por isso que eu fui à Palestina, é por isso que eu fui ao Irã, porque eu acho que só vai haver paz no Oriente Médio quando todos os envolvidos se sentarem em torno da mesa. Não é um acordo de amigos entre Estados Unidos e a Direção de Israel ou a Direção Palestina, porque tem mais gente envolvida, tem mais gente envolvida. Se o Hamas não estiver à mesa de negociação, se o Hezbollah não estiver à mesa de negociação, se a Síria não estiver à mesa de negociação, se o Irã não estiver à mesa de negociação, será uma relação truncada. Além do que, é preciso colocar outros países que queiram construir a paz. É assim que eu vejo a importância de construção da paz, e é por isso que eu dou muita importância ao papel estratégico que a Síria tem na região.
Relações com países árabes
Depois da viagem que nós fizemos à Síria (em 2003), o meu ministro Celso Amorim já voltou cinco vezes à Síria, e nós já fizemos dois encontros [entre os países] árabes e a América do Sul: fizemos um encontro aqui em Brasília e fizemos um encontro em Doha no ano passado. Além de melhorar as relações políticas, melhoraram muito as relações comerciais entre o Brasil e os países árabes, sobretudo porque o Brasil é um país que tem uma população árabe muito grande, sobretudo a população síria aqui. Calcula-se que nós temos por volta de dois milhões ou três milhões de descendentes de sírios aqui no Brasil.
Pois bem, hoje a relação, ela está muito, mas muito melhor. Há um processo de confiança mútua entre muitos países árabes e o Brasil. Nós já não somos mais estranhos uns aos outros. Quando veio a crise econômica, ficou provado que estava certa a atitude do Brasil de diversificar as nossas relações políticas e comerciais. O nosso comércio cresceu muito com a África, cresceu muito com os países árabes, cresceu muito com o mundo asiático, cresceu muito na América Latina, e nós ficamos menos dependentes dos Estados Unidos e menos dependentes da Europa. Embora a nossa balança comercial continue crescendo, em média, 20% com os Estados Unidos e com a Europa, o fato concreto é que ela cresceu mais com os países árabes e cresceu mais com os países africanos e com a América Latina.
Negociação com o Irã
Olhe, o que aconteceu no caso do Irã, foi um caso inusitado. Primeiro, porque nenhum dos grandes líderes que colocaram em prática as sanções contra o Irã nunca conversaram com o Irã. Eu, depois de um encontro que tive em Nova Iorque com o Ahmadinejad, cheguei ao G-20, em Pittsburgh, encontrei Obama, encontrei Gordon Brown, encontrei Sarkozy, encontrei Angela Merkel, e nenhum deles tinha conversado com o Presidente do Irã. Eu dizia para eles: como é possível nós deixarmos de exercer o nosso papel de políticos, terceirizarmos a conversa através dos nossos assessores e não exercermos o papel de liderança que o povo nos deu na eleição? Era preciso que os principais líderes pegassem o telefone, ligassem para o Ahmadinejad e o convidassem para uma reunião. Ninguém quer porque, a priori, eles dizem que não acreditam no Irã, mas o Irã também não acredita neles. Então, alguém tem que começar essa conversa. Veja, eu não tinha procuração para negociar com o Irã. A ideia surgiu na visita do Ahmadinejad ao Brasil. Eu senti que tinha um espaço de diálogo, e a Turquia também sentiu que tinha um espaço de diálogo, até porque a Turquia era muito importante, porque seria a Turquia que iria receber os 1.200 quilos de urânio do Irã.
Acordo com o Irã
O acordo que nós fizemos com o Irã é o que está na carta do Obama. Estranhamente, depois que nós fizemos o acordo, que eles deveriam chamar o Irã para conversar, eles transformaram as sanções em uma questão de honra. Por quê? Porque eles estavam prisioneiros dos seus discursos, falaram demais e não tinham como voltar atrás. Uma semana depois, o Irã manda a carta – que eles não acreditavam que o Irã fosse mandar – para o Grupo de Viena, representado pelos Estados Unidos, pela França e pela Rússia, e eles fizeram as sanções antes de ler a carta! É o absurdo do absurdo!
Eu, sinceramente, fiquei decepcionado, fiquei decepcionado. Fiquei decepcionado porque eu não tinha nenhum compromisso de fazer um acordo com o Irã. Eu tinha compromisso de pactuar com a Turquia e com o Irã o compromisso de o Irã se sentar à mesa com a Agência, e o Irã concordou. Quem não concordou foram os membros permanentes do Conselho de Segurança, que queriam punir o Irã quase por vingança. Talvez um pouco de ciúme de que o convencimento do Irã foi feito por dois países que não são membros permanentes do Conselho de Segurança.
Então, eu acho que as pessoas precisam aprender que o exercício da democracia e o diálogo são muito complicados, mas são a melhor maneira de a gente construir os acordos e os consensos.
Papel brasileiro nas negociações de paz
Veja, o Brasil sozinho pode fazer muito pouco. Ali, era preciso saber o seguinte: nós sabemos que Israel tem nos Estados Unidos o seu mais importante interlocutor. Então, nós precisamos saber agora quem será o grande interlocutor da Autoridade Palestina? Quem será o grande interlocutor dos grupos que discordam da política de paz, pelo menos do Hamas e do Hezbollah? Quem goza da confiança da Síria? Quem goza da confiança do Irã? Todas essas pessoas têm que estar em torno de uma mesa com o limite mínimo de negociação. Agora, veja: não basta tomar decisão. É preciso tomar decisão, e a ONU exigir que as decisões sejam cumpridas, porque o que tem acontecido é que muitas vezes as decisões não são cumpridas e não há nenhum instrumento de pressão para que elas sejam cumpridas.
Quando o Brasil… Veja, eu estou deixando a Presidência dentro de seis meses. Então, não é um problema do Lula, é um problema da importância do Brasil e a importância da convivência pacífica de árabes e judeus no nosso país. O país… O Brasil tem uma cultura de paz e por isso nós achamos que o Brasil pode ajudar. Agora, parece que o conflito tem donos! Então, não pode entrar… Nós fizemos a primeira reunião de Annapolis e não fizemos a segunda ainda. E não fizemos por quê? Porque alguém não quer.
A magia do Brasil
Eu acho que o grande legado que o meu governo vai deixar para o povo brasileiro é que o povo mais humilde pode chegar onde eu cheguei e fazer igual ou mais do que eu. Então, eu acho que o sucesso do governo está ligado a isso. Eu trabalho mais do que os outros, brigo mais do que os outros, viajo mais do que os outros, fiscalizo mais do que os outros, cobro mais do que os outros, porque quando eu deixar a Presidência, eu vou morar a 600 metros de onde eu saí para ser presidente, e vão estar lá os trabalhadores da Volkswagen, da Mercedes, da Ford, e os dirigentes sindicais todos, perto da minha casa, me cobrando. Então, eu acho que isso explica o acerto do nosso governo.
A primeira visita de um chefe de Estado da Síria ao Brasil reforça a parceria entre os dois países tanto no campo comercial como também diplomático, principalmente nas negociações de paz no Oriente Médio, afirmou o presidente Lula em seu discurso realizado nesta quarta-feira (30/6) durante encontro com o presidente sírio Bashar Al-Assad no Palácio Itamaraty. A vinda de Al-Saad ao Brasil “é uma viagem de descoberta e reencontro”, disse Lula, lembrando que a Síria contribuiu muito para a formação da nação brasileira.
Sua presença aqui é oportunidade para selarmos parceria lançada quando estive em Damasco em 2003. Nesses sete anos, nossas relações ganharam novas dimensões e possibilidades. A capacidade de transpor barreiras e compartilhar experiências é o impulso maior de nosso relacionamento. Os acordos que assinamos hoje dão sentido prático a esse compromisso. Temos uma aliança assentada em números sólidos. O comércio quadruplicou e hoje alcança 300 milhões de dólares.
A criação do Conselho Empresarial Brasil-Síria abre oportunidades para multiplicar o comércio e estimular os investimentos. Essa tendência é de crescimento com um sistema multilateral de comércio mais representativo dos anseios do mundo em desenvolvimento. Por isso, defendemos o fim dos entraves que impedem o avanço do processo de acessão da Síria à OMC.
Ouça aqui a íntegra do discurso:
Lula lembrou que sempre priorizou o mundo árabe nas relações internacionais, citando o lançamento da Cúpula América do Sul – Países Árabes, em 2005, para defender “uma ordem internacional mais democrática e equilibrada”. E nesse contexto, uma das prioridades é a construção da paz no Oriente Médio, afirmou o presidente brasileiro.
A construção da paz no Oriente Médio é um dos pilares desse projeto do qual o Brasil quer ser parceiro. Mas essa é uma responsabilidade de todos. Esse conflito transcende as dimensões regionais. Afeta o mundo inteiro. Recusamos a tese de que o Oriente Médio está fadado ao conflito, de que seus filhos estão condenados a reviver a irracionalidade da guerra. Não haverá reconciliação verdadeira se houver vencedores e vencidos. Temos urgência em ver a região pacificada, com todos seus povos vivendo em harmonia.
Para Lula, a Síria é “um sócio indispensável na busca da pacificação” e “tem que ser ouvida e envolvida nas grandes discussões sobre o futuro do Oriente Médio”. O presidente brasileiro defendeu o princípio de “terra por paz”, para assegurar a devolução das colinas de Golã à Síria e também um estado Palestino “independente, soberano, coeso e economicamente viável”, que possa conviver “em segurança e dignidade” com Israel.
Isso só será possível com unidade. Contamos com a Síria para ajudar a alcançar uma verdadeira reconciliação entre palestinos.
As novas sanções contra o Irã, aprovadas nesta quarta-feira (9/6) pelo Conselho de Segurança da ONU, são uma vitória de Pirro (aquela que é obtida a um custo muito alto) ”de quem não queria negociar e acha que a força resolve tudo”, afirmou o presidente Lula em entrevista coletiva concedida hoje em Natal (RN). O presidente classificou a aprovação das sanções de “birra” e disse ainda que elas serão praticamente inócuas, não tendo implicação alguma para o Irã. Lula reafirmou sua preferência pelo diálogo, lembrando que em política, a melhor forma de resolver um conflito é gastar o máximo de tempo possível conversando.
Acho que foi um equívoco a tomada de decisão, acho que às vezes me dá a impressão daquele pai duro, que às vezes é obrigado a querer dar uma palmada no filho mesmo que o filho não mereça, para dizer que é o pai. Eu acho que o Conselho de Segurança jogou fora uma oportunidade histórica de negociar tranquilamente o programa nuclear iraniano e ao mesmo tempo discutir com mais profundidade a desativação dos países que tem armamento nuclear.
Ouça aqui a íntegra da entrevista:
Lula negou que a aprovação de novas sanções ao Irã trará algum prejuízo ao Brasil, que fez o que tinha que fazer: dar uma chance à negociação. “Mas eles (países do Conselho de Segurança) provaram que não queriam negociar”, lamentou o presidente brasileiro, que aponta o episódio como emblemático da necessidade de se reformar o Conselho de Segurança da ONU:
Nós estamos reformá-lo há mais de 17 anos, porque ele não representa mais a atualidade política do mundo, ele representa uma correlação de forças existente em 1948, quando foi criada a ONU, e que portanto a geografia política e econômica do mundo mudou e nós queremos que a ONU tenha mais representatividade, que tenha gente da América Latina, que tenha gente da África, a Índia, que tenha outros países, e os senhores que são donos do Conselho não querem abrir mão porque não querem levar ninguém para sentar numa mesa e democratizar de verdade o Conselho de Segurança da ONU.
O que o mundo precisa hoje é de mais diálogo, comida e emprego, não de violência como a promovida por soldados israelenses ontem contra ativistas que pretendiam entregar ajuda humanitária à população da Faixa de Gaza, afirmou o presidente Lula nesta terça-feira (1º/6) em visita à fábrica da Volkswagen em São Bernardo do Campo (SP), reforçando as críticas do governo brasileiro ao incidente. “Israel não tinha direito de fazer o que fez. Não é o uso de armas que vai garantir a paz”, disse Lula, em entrevista coletiva à imprensa após o evento.
O diálogo é a melhor forma de resolver os conflitos, não atirando como Israel atirou ontem num barco turco que ia levar comida para a Faixa de Gaza, um barco que estava em águas internacionais. (…) Em vez de armas, em vez de balas, mais comida e mais diálogo. Mais emprego e mais salário, para que a gente possa resolver todas as crises do mundo.
Ontem o Ministério das Relações Exteriores (MRE) divulgou nota condenando o ataque israelense à frota de ativistas pró-Gaza e defendendo uma convocação extraordinária do Conselho de Segurança da ONU -- ver aqui.
Ouça aqui a íntegra do discurso do presidente na visita à fábrica da Volkswagen:
Em sua última visita à Volkswagen como presidente da República, Lula lembrou dos seus primeiros momentos no movimento sindical, a partir de 1975, e de tudo que os sindicalistas conquistaram de lá para cá. “Naquele tempo, os especialistas em sindicalismo diziam que era bobagem eu entrar no sindicato, porque a legislação sindical brasileira era cópia fiel da Carta del Lavoro do Mussolini na Itália, não dava para fazer nada porque a lei proibia”, destacou. “Proibia até trabalhadores de fazer greve.”
Mas em três anos, lembrou Lula, a história do movimento sindical brasileiro foi mudada. Em 1978 ocorreu a primeira greve no País desde 1968. E assim a relação entre os trabalhadores e as empresa foi mudando e as conquistas foram sendo realizadas. O presidente Lula lembrou ainda da criação do Partido dos Trabalhadores, em 1980, para suprir a ausência de representantes dos trabalhadores no Congresso Nacional. “A idéia era de que a classe trabalhadora pudesse reivindicar também o direito de governar o País.”
Lembrou também de quando chegou à Presidência da República, da preocupação que tinha em não repetir o fracasso de Lech Walesa na Polônia. “Eu não podia fracassar, porque aí nunca mais um trabalhador poderia chegar à Presidência”, disse Lula. “Eu tinha que provar que nós podíamos governar, ser melhor do que os que governaram antes de nós neste País.”
Ao final de seu governo, Lula está convicto de que o Brasil vive um momento mágico, bem como o movimento sindical, que “só não conquistou no meu governo aquilo que não reivindicou”. No caso da redução da jornada de trabalho para 40 horas, cobrada por alguns sindicatos, Lula afirmou que não poderia fazê-la de cima para baixo. “Tem que vir de baixo para cima”, frisou.
Lula agradeceu ainda o apoio que os trabalhadores de São Bernardo do Campo (SP) deram a ele durante os momentos mais difíceis de seu governo. Em 2005, no auge da crise do ‘mensalão’, surgiu na cidade uns adesivos que diziam: “Mexeu com Lula, mexeu comigo”. “Hoje sou o presidente mais bem avaliado do País, e devo isso a vocês, que me apoiaram quando mais precisei”.
Durante discurso por ocasião da abertura do III Fórum da Aliança de Civilizações, nesta sexta-feira (28/5), no Museu de Arte Moderna (MAM), no Rio, o presidente Lula enfatizou que “a energia nuclear deve ser um instrumento para a promoção do desenvolvimento, não uma ameaça”. Segundo ele, “são absurdas as teses sobre uma suposta fratura de civilização no mundo, que conduziria inexoravelmente a conflitos. Essas teorias são criminosas quando utilizadas como pretexto para ações bélicas ditas “preventivas””.
O Brasil aposta no entendimento, que faz calar as armas. Investe na esperança, que supera o medo. Faz da democracia política, econômica e social sua única arma. Minha experiência como líder sindical ensinou-me que posições inflexíveis só ajudam a confrontação e afastam a possibilidade de soluções de paz, que as maiorias aspiram. Com esses princípios viajei a Tel Aviv e Ramalá buscando paz. Com esse propósito o primeiro-ministro Erdogan [Turquia]e eu fomos a Teerã buscar, com o presidente Ahmadinejad, uma solução negociada para um conflito que ameaça muito mais do que a estabilidade de uma região importante do planeta.
Ouça aqui a íntegra do pronunciamento do presidente Lula:
Leia aqui a íntegra do discurso do presidente Lula.
Lula iniciou o pronunciamento oficial do III Fórum da Aliança de Civilizações dando as boas vindas aos participantes do encontro mundial. Ele afirmou que “essa Aliança foi a resposta de um expressivo grupo de nações à ofensiva obscurantista daqueles que pretenderam dividir a humanidade a partir de um suposto “choque de civilizações”. Nossa adesão a esse projeto está em sintonia com os princípios universalistas que regem o Estado brasileiro e sua política externa. Mas também reflete o que foi a construção de nossa identidade nacional”.
Em seguida, explicou o fato de o Brasil acolher as mais diversas religiões e culturas, bem como o fato de o país ter em sua população cidadãos dos mais diversos povos, como por exemplo, “milhões de africanos que para aqui vieram forçados para o trabalho escravo”. Lula lembrou também que “abriga sucessivas levas de imigrantes europeus e asiáticos. Aqui convivem pacificamente milhões de árabes com centenas de milhares de judeus”.
O Brasil tem uma enorme dívida para com os povos de quase todo o mundo que ajudaram a construir nossa riqueza material mas, sobretudo, são responsáveis pela construção de nosso patrimônio cultural. Todos eles – sem exceção – fazem parte do que chamamos de civilização brasileira. Aprendemos com nossa própria história que a tolerância e a igualdade de oportunidades são fundamentais para um ambiente de concórdia e de paz. Ela nos ensinou que a exclusão, o pré-conceito e a pobreza alimentam cenários de tensão e de conflito. Fomentam situações de dominação e de injustiça que impedem povos e nações de construírem um futuro digno e pacífico.
Para o presidente brasileiro “não haverá encontro fraternal de civilizações enquanto não forem enfrentadas as raízes profundas dos conflitos. Enquanto houver fome e desemprego. Mas também enquanto persistir a intolerância étnica, religiosa, cultural e ideológica”. Segundo ele, “a promoção de uma cultura de paz deve ser um dos pilares centrais desse Fórum”. E dá a receita: “Para tanto, precisamos renovar mentalidades. Mas para renová-las é necessário oferecer oportunidades de crescimento econômico, com justiça social, aos milhões de homens e mulheres que vivem nas margens da humanidade -- humilhados e ofendidos -- sem esperança”.
Na sequência do pronunciamento, o presidente Lula disse que “a promoção da aliança de civilizações requer criatividade para forjar novos laços entre regiões e continentes. Reduzimos distâncias físicas, aproximando visões de mundo, integrando povos e culturas”. Ainda no discurso, informou que “na América Latina e Caribe estamos consolidando um projeto de integração regional que vai além da criação de um espaço econômico continental. Queremos que nossa diversidade seja um fator de multiplicação de nossa força, não o pretexto para dissolver nossos objetivos comuns. Foi a perspectiva de ampliação de um diálogo de civilizações que nos levou a realizar duas reuniões cúpula entre países da América do Sul com os países árabes e outras duas com os países africanos”.
Ele frisou também que “a crise financeira que se abateu sobre todos mostrou o quão necessário será contar com organizações multilaterais vigorosas, à altura de um mundo cada vez mais diverso, multipolar. Mas constatamos grande resistência à mudança. Incapazes de assumir seus próprios erros, alguns governantes buscam transferir o ônus da crise para os mais fracos. Adotam medidas protecionistas, que oneram bens e serviços exportados por países em desenvolvimento. Ao mesmo tempo em que se mostram lenientes com os paraísos fiscais, responsabilizam imigrantes pela crise social”.
Lula defendeu uma imediata reação da comunidade internacional como forma de combater “as manifestações de xenofobia e de racismo é tarefa inadiável. O Brasil continua um país aberto e solidário para aqueles que vêm buscar aqui trabalho digno e vida melhor”. E acrescentou: “No momento em que a recessão ceifava milhares de empregos em nossa economia, não hesitamos em regularizar a situação de dezenas de milhares de migrantes.”
A última etapa do pronunciamento, o presidente Lula destacou a impotância dos jovens para o mundo. Segundo o presidente brasileiro, “os jovens constituem um dos grupos mais vulneráveis ãs influências do fanatismo e da intolerância”, mas, ao mesmo tempo, estes jovens, conforme assinalou, “são a melhor promessa para o futuro, sempre que orientados para o conhecimento do outro e para o respeito às diferenças”.
O presidente afirmou ser “imprescindível um forte investimento na educação”. Para Lula, “o conhecimento e a informação histórica e cultural sobre diferentes civilizações são essenciais para a promoção de um ambiente naturalmente tolerante. Por isso estamos implementando o ensino da história e da cultura afro-brasileira nas escolas brasileiras”. E acrescentou: “Povos sem conhecimento de sua história e de sua cultura não têm como avaliar o presente e serão incapazes de fazer as melhores opções para a construção do seu próprio futuro.”
Esse III Fórum confirma que não nos deixamos vencer nem pela distância nem pelo ceticismo dos que duvidavam de nossa capacidade de trabalharmos juntos. Aqui prevalece a determinação de romper paradigmas para aperfeiçoar um diálogo pioneiro entre Estados e sociedades que desejam construir um mundo à imagem de suas melhores tradições de entendimento e de solidariedade. É essa a mensagem que nossa Cúpula lança. O Brasil ajudará a solidificar cada vez mais essa ponte de amizade e cooperação que estamos construindo entre nossos povos.
Em sua primeira edição organizada fora da Europa, o Fórum Aliança das Civilizações leva para o Rio de Janeiro a oportunidade de aproximar ainda mais os países da América do Sul, afirmou o porta-voz da Presidência da República, Marcelo Baumbach, em ‘briefing’ concedido nesta quarta-feira (26/5) em Brasília. O 3º Fórum Aliança das Civilizações contará com a participação do presidente Lula e será palco de reuniões bilaterais com os primeiros-ministros José Luiz Zapatero, da Espanha, e José Sócrates, de Portugal.
Entre os assuntos a serem tratados com os dirigentes europeus está a crise econômica enfrentada pelos países europeus:
Além de explicar detalhes sobre o Fórum Aliança das Civilizações, Baumbach respondeu ainda questões sobre a reunião que o presidente Lula terá na quinta-feira (27/5) com o primeiro-ministro da Turquia, Recep Erdogan. O porta-voz afirmou que o Brasil continuará trabalhando para evitar que “as portas se fechem” para as negociações por um acordo em relação ao programa nuclear do Irã. Brasil e Turquia negociaram em Teerã os termos de um acordo para que o Irã possa apresentar garantias à comunidade internacional.
Ouça aqui a íntegra da entrevista concedida por Marcelo Baumbach:
Baumbach informou que o presidente brasileiro encaminhou carta ao presidente dos EUA, Barack Obama, e mensagens aos presidentes Nicolas Sarkozy (França), Dimitri Medvedev (Rússia) e Felipe Calderón (México), além de integrandes da Unasul. “O Brasil pretende continuar no esforço para fomentar o diálogo”, assegurou o porta-voz.
No voo de volta ao Brasil, conversamos com o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, sobre o acordo firmado na segunda-feira (17/5) entre Irã, Brasil e Turquia para o enriquecimento do urânio iraniano com fins pacíficos. O ministro está convicto de que o acordo dá as condições necessárias para se evitar novas sanções ao Irã e comemorou a vitória da diplomacia sobre a pressão. “Capacidade de persuasão do Brasil e da Turquia foi mais eficiente do que a linguagem da pressão”, disse Amorim.
Para o chanceler brasileiro, os parágrafos do acordo que dizem respeito à troca do urânio iraniano -- depósito de 1.200 quilos de urânio levemente enriquecido na Turquia e recebimento, até um ano depois, de 120 quilos de urânio enriquecido a 20% -- são os mais importantes, por ser “um instrumento fundamental para a criação de confiança e abrir o diálogo”.
Celso Amorim frisou ainda que o acordo prevê a continuação das negociações e faz questão de destacar que é a primeira vez que o Irã aceita depositar seu urânio num terceiro país (no caso, a Turquia) e assumir por escrito seus compromissos com a Agência Internacional de Energia Atômica (AEIA).
Eu acho que não há fundamento algum para novas sanções à luz do acordo. Não sou dono da cabeça de ninguém, mas eu acho que estão dadas as condições para a solução do caso do programa nuclear iraniano.
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