Dona Railda Alves (de vermelho) incentivou os filhos a participar da agricultura familiar. Ela, as filhas e as noras são integrantes da Associação de Mulheres Quilombolas da Comunidade Lagoa de Gaudêncio. Foto: Rafael Alencar/PR
Setenta trabalhadoras rurais de municípios da Bahia estão prontas para expor seus produtos à presidenta Dilma Rousseff, que participará da “Mostra dos Grupos Produtivos de Mulheres Rurais” nesta terça-feira (1/3), em Irecê (BA). A exposição faz parte do início das comemorações do mês da mulher, que será celebrado pelo governo federal com diversos eventos e ações sociais.
Dona Railda Alves, da comunidade quilombola Lagoa de Gaudêncio, em Lapão (BA), é uma das expositoras. Mãe de sete filhos, ela dedicou grande parte da vida à lavoura de feijão e milho de outros produtores, ganhando como diarista, ou seja, sem carteira de trabalho assinada e com rendimento atrelado à produção diária.
“Quando tinha lavoura a gente ganhava um pouquinho e quando não tinha, a gente ficava sem nada”, conta do tempo que não tem saudade.
Dona Railda prepara o vidro com os temperos que serão expostos na Mostra dos Grupos Produtivos de Mulheres Rurais. Foto: Rafael Alencar/PR
Foi por meio da agricultura familiar que dona Railda passou de empregada à produtora rural autônoma. “Após mais de 30 anos criando os filhos sem a certeza de que a renda viria”, ela e outras mulheres da região fundaram a Associação de Mulheres Quilombolas da Comunidade Lagoa de Gaudêncio. A associação é responsável por comercializar toda a produção de temperos e derivados de cenoura que é produzida pelas mulheres de forma caseira. Aos poucos, a culinária das mulheres de Lagoa de Gaudêncio vem conquistando a região: lá é possível experimentar a cocada e a rapadura de cenoura, os bolos e o famoso tempero de dona Railda, que terá destaque no estande de Lapão durante a mostra de Irecê.
As filhas e noras de dona Railda já seguiriam seus passos e hoje integram a Associação de Mulheres. Lauriceia Rodrigues Alves abraçou a causa e se tornou uma das líderes e principais representantes da comunidade quilombola. A renda da família de dez pessoas vem da produção dos bolos e doces, mas conta com o auxílio do Bolsa Família “para o pagamento da água, luz e material escolar dos oito meninos”. É também com a renda da produção agrícola que Lauriceia está cursando o segundo ano de geografia na Faculdade Tecnológica de Ciências de Lapão. Os filhos que estão em idade escolar – orgulha-se Lauriceia – também frequentam a escola assiduamente.
“O Bolsa Família para mim é uma benção. É uma ajuda necessária para pagar as contas do mês. Mas o que a gente quer mesmo e batalha pra isso é que a nossa produção aumente e a gente melhore a vida da comunidade. Com a venda dos bolos ganho uns 15 [reais] por dia, mas nosso sonho é comprar o forno e o refrigerador para a associação e aumentar o que a gente produz”, diz.
Atualmente tudo o que é produzido pela associação de mulheres da comunidade quilombola já tem destino certo. A compra dos produtos é garantida pela Cooperativa da Agricultura Familiar do Território de Irecê (Coafti), que recebe recursos federais do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). Os produtos são encaminhados à merenda escolar e ao Programa Fome Zero.
Cleni Ocampos tem 38 anos e participa do Talentos do Brasil com a Lã Pura, cooperativa que envolve três municípios gaúchos e é beneficiada pelo projeto Talentos do Brasil. Iniciativa do Ministério do Desenvolvimento Agrário, o projeto apoia a estruturação de grupos produtivos sustentáveis e já levou o trabalho de pequenos produtores aos principais eventos de moda do País.
O trabalho coletivo transformou a pequena associação de artesãs da fronteira do Rio Grande do Sul na cooperativa, que hoje gera o sustento de 28 famílias do pampa gaúcho – em sua maioria, moradores de assentamentos para trabalhadores sem-terra. Para a ex-faxineira, a expectativa é de “vender muito” na Feira Nacional da Agricultura Familiar e Reforma Agrária que está sendo realizada em Brasília.
Cleni conquistou um mercado que jamais imaginava ocupar, utilizando como matéria-prima lã e crina de cavalo, com a qual faz brincos, colares e pulseiras. A tecelagem, o croché e o bordado, desde a fiação, passando pelo tingimento e a aplicação, até a peça final, levam produtos repletos de cultura e tradição a todo Pais, rompendo fronteiras.
Eva Kuffner, presidente da Lã Pura e da Cooperunica, que reune os trabalhadores dos 12 estados do Talentos do Brasil, espera reptir este ano o ótimo resultado dos anos anteriores. “A gente passa o ano pensando nessa feira porque as vendas são sempre boas”, afirmou. Com o tema “Passarada – Um encanto em cada canto”, Kuffner explica que o trabalho está se modernizando e que agora estão operando com crédito e débito, “o que vai incrementar mais ainda as vendas”.
O carioca Gilmar Carino trocou a grande cidade pelo campo e não se arrepende. Vivendo hoje em Santa Maria Madalena, a pouco mais de 200 quilômetros da capital carioca, Carino já produz cerca de 250 litros de leite por dia e, com a ajuda da mulher, dois filhos e um empregado, transforma parte de sua produção em queijo.
Ele resolveu mudar de cidade há sete anos, quando os filhos entraram na adolescência, optando pela migração inversa à maioria dos brasileiros: deixou a cidade grande e foi para uma pequena comunidade, em busca de uma vida mais próxima da natureza e distante da violência.
Carino, que vive a rotina dura do campo, de acordar cedo para a ordenha, vem para a cidade participar das feiras do Ministério do Desenvolvimento Agrário desde 2006. Ele vê o espaço como uma oportunidade de “ser conhecido e voltar com dinheiro pra casa”.
Para a sétima edição da feira, que traz a Brasília o melhor da produção da agricultura familiar de todo o País, Carino produziu 600 quilos de queijo e acredita que vai voltar com a sacola vazia e a carteira cheia, porque, na opiniao dele, “a agricultura familiar ganhou uma força muito grande no último período e incentivos, como o Pronaf, que tem feito com que a gente possa prosperar”.
Cultura, música, artesanato, gastronomia, orgânicos e moda integram a Feira Nacional de Agricultura Familiar, que está sendo realizada em Brasília até o dia 20 de junho, em uma área de 30 mil metros quadrados montada na Concha Acústica do Lago Paranoá. A Feira reúne 650 empreendimentos familiares e mais de 550 toneladas de produtos de todas as regiões do País, além de uma extensa programação cultural que une o contemporâneo e cultura de raiz.
O presidente Lula afirmou nesta quinta-feira (17/6) ter orgulho da relação que tem com os movimentos sociais e incentivou a todos a continuarem reivindicando, porque a cada conquista, o Brasil avança e a vida da população melhora. “Tenho orgulho dessa relação com os movimentos sociais, uma coisa sincera, verdadeira”, disse o presidente durante a abertura da 7ª Feira Nacional de Agricultura Familiar, em Brasília. “E continuem trabalhando, porque se vocês não trabalharem, não reivindicarem, muitas vezes o governo não enxerga vocês.”
Numa caminhada, a gente vai dando passo a passo, porque senão a gente pode cair e não prosseguir a nossa caminhada. Estamos num momento primoroso e de muito orgulho em nosso País. Finalmente parece que valeu conquistar nossa independência em 1822. Depois de tantos anos, estamos nos tornando mais cidadãos, os mais pobres começam a ser tratados com mais respeito, como sempre deveriam ser tratados.
Um dos bons reflexos do sucesso das políticas públicas implementadas no País, após discussão com a sociedade por meio de dezenas de conferências realizadas nos últimos anos, foi a diminuição do êxodo rural, afirmou o presidente, com as pessoas preferindo hoje ficar no campo e produzir, fortalecendo a agricultura familiar -- como fica evidente para quem visita a Feira Nacional realizada em Brasília.
Lula também defendeu um novo papel para as reservas florestais, lembrando que nenhum governo criou tantas delas como o seu. Mas a grande questão é como usá-las em benefício das populações locais, que podem ajudar a protegê-las.
Ouça aqui a íntegra do discurso:
Lula voltou a elogiar a integração do governo com a sociedade, sindicalistas e movimentos sociais, por meio das 68 conferências nacionais realizadas em oito anos, que ajudaram a fazer leis, decretos e políticas públicas, “melhorando a vida de cada um de vocês”, observou. Mas o presidente disse ainda não estar satisfeito. Ele quer mais e entende que todos devem ter o mesmo espírito de desejar cada vez mais. “Eu não me incomodo com reivindicações”, disse, sempre deixando claro que nem todas elas serão atendidas.
Ao se despedir, Lula afirmou que pretende visitar a Feira no domingo, juntamente com a primeira-dama Marisa Letícia, “não como presidente, mas como cidadão” e poder assim aproveitar o que ela tem de bom.
Durante a cerimônia de abertura da 7ª Feira Nacional de Agricultura Familiar o presidente aproveitou para anunciar a destinação de R$ 16 bilhões para financiamentos de agriculturoes, em linhas de custeio, investimento e comercialização, por meio do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf). O volume de recursos do Plano Safra foi ampliado em mais de 500%, segundo o Ministério do Desenvolvimento Agrário, e os principais destaques da edição deste ano do Plano são os novos limites de financiamento para linhas de crédito como Pronaf Jovem, Agroindústria, Semi-Árido e apoio à reconversão produtiva dos produtores de fumo.
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