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Presidente Lula com operários da UTE Euzébio Rocha, inaugurada nesta quarta-feira (10/3), em Cubatão (SP). Foto: Ricardo Stuckert/PR

Presidente Lula com operários da UTE Euzébio Rocha, inaugurada nesta quarta-feira (10/3), em Cubatão (SP). Foto: Ricardo Stuckert/PR

Num palanque montado no interior da Usina Termelétrica Euzébio Rocha (UTE), em Cubatão (SP), o presidente Lula conclamou aos investidores para que mantenham seus negócios no Brasil, pois o país terá energia suficiente para permitir o funcionamento do parque industrial brasileiro. A térmica inaugurada por Lula, segundo ele destacou, deveria estar funcionando há anos. Com investimentos da Petrobras, a unidade situada na Baixada Santista é prova que o país possui recursos energéticos para que as máquinas sigam no ritmo acelerado de produção. Conforme o presidente, tal fato reforça a tese de que o Brasil vive “um momento de quase estado de graça”.

O presidente frisou ainda que o marco regulatório do setor de petróleo e gás, inclusive com a exploração na camada do pré-sal, permitirá a obtenção de recursos suficientes para investimentos no desenvolvimento do país. E a produção extraída das águas profundas resultará em combustível com elevado valor agregado, permitindo como consequência, mais divisas aos cofres públicos.

“O Brasil está vivendo esse momento em que a Petrobras descobre o pre-sal. Só no Campo de Tupi teremos quantidade de reserva igual a que tínhamos antes. Porém, não queremos vender óleo cru. Queremos colocar valor agregado para que possamos ter mais dinheiro para investir na educação. Esse petróleo é para dar ao povo brasileiro aquilo que o Brasil deveria ter dado há muito tempo”, afirmou.

Leia aqui a íntegra do discurso do presidente Lula.

Ouça a íntegra do discurso:


Lula explicou que as novas diretrizes do governo permitirão que as companhias que vierem a explorar os blocos de petróleo e gás tenham que repassar parcelas dos lucros aos cofres da União. Para administrar estes recursos, segundo sinalizou, o governo cria “uma empresa enxuta”. Numa outra linha de ação, conforme disse, o governo vem alavancando o setor da construção naval e assegurando produção suficiente de energia elétrica.

“Esse país não quer ser exportador de ferro, soja e suco de laranja. Estamos sinalizando para os investidores que podem vir fazer investimento no Brasil, pois vamos ter energia suficiente. Em 2001, tínhamos água sobrando no Sul e não tínhamos linha de transmissão. Agora, temos linha de tansmissão. Nunca mais a gente vai ter apagão. A não ser se houver as intempéries. Aí, com a zanga de Deus a gente baixa a cabeça e faz a coisa certa para não errar outra vez”, explicou.

No discurso, o presidente destacou também o fato de o país ter ficado, por mais de 20 anos, sem investimentos e os engenheiros que se formavam no Brasil buscavam trabalho no mercado financeiro. Lula lamentou que durante muito tempo as empresas não fixavam placas com ofertas de vagas para tais profissionais. Lula também questionou o fato de, nas últimas décadas, os governos e segmentos da sociedade defenderam e, em várias casos, conseguiram as privatizações de empresas estatais dos setores de telecomunicações, energia, siderurgia, portos e ferrovias. O presidente utilizou como exemplo a tentativa de se vender a Petrobras.

Lula lembrou também o período em que o país era subserviente ao FMI. Segundo ele, o cenário mudou. O país passou a ser credor do FMI e conta com reservas financeiras em dólar suficientes que permitiram atravessar a fase mais aguda da crise mundial de 2009. “Só chegamos ao dia de hoje porque em alguns momentos a gente teve coragem. Hoje não devemos nada ao FMI e eles nos devem US$ 14 bilhões e o Brasil tem reservas cambiais de US$ 241 bilhões. É por isso que vamos gerar mais dois milhões de empregos em 2010. E vamos fazer três refinarias. E a indústria automobilística faz mais carros e vende mais carro”, sinalizou.


[19] Comentários

O professor Luiz Pinguelli Rosa, diretor da Coppe-UFRJ (Coordenação dos Programas de Pós-Graduação em Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro) e coordenador do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas escreveu um artigo sobre o blecaute da última terça-feira que atingiu 18 estados brasileiros. Ele afirma que a causa do incidente é completamente diferente da que levou ao racionamento obrigatório de energia elétrica em 2001, quando faltou energia para atender as demandas do Brasil por falta de investimentos.

O artigo foi publicado no jornal Folha de S.Paulo de hoje. Leia a íntegra do artigo abaixo. Se for assinante da Folha ou do UOL, também pode conferir aqui.

Ainda pairam algumas dúvidas sobre o blecaute que atingiu vários Estados brasileiros, mais drasticamente São Paulo e Rio de Janeiro. É preciso esclarecer, porém, que o ocorrido na terça-feira foi totalmente diferente do chamado apagão de 2001, quando o governo decretou um racionamento obrigatório de energia elétrica para toda a população, sob pena de desligamento de residência ou empresa por alguns dias caso não fosse cumprido o corte no consumo.

Naquela ocasião, havia falta de energia para atender a demanda, pois esta vinha crescendo mais rapidamente do que a capacidade instalada no país. Enquanto houve chuvas suficientes para a geração hidrelétrica, o sistema funcionou e o problema foi adiado. Quando as chuvas se reduziram, os reservatórios estavam vazios e faltou energia no sistema.

Alertei o então presidente Fernando Henrique Cardoso por uma carta, como coordenador do Instituto Virtual da Coppe/UFRJ, e cheguei a conversar com José Jorge, à época ministro de Minas e Energia. Naquele caso, houve falta de investimento. As estatais elétricas, a começar pela Eletrobrás, reduziram seus investimentos, pois aguardavam a privatização. Já as empresas privatizadas, a maioria delas distribuidoras nos Estados, pouco investiram.

O problema da última terça-feira tem mais semelhança com o blecaute de 1999, que também desligou São Paulo e muitas outras cidades, algumas por muito mais horas do que o recente incidente. Aquele problema se originou em uma subestação de transformadores em Bauru (SP), causado por uma sobretensão elétrica supostamente devida a um raio que atingiu a linha de transmissão a muitos quilômetros de distância e se propagou até a subestação -que deveria estar protegida. Como não estava, o sistema falhou.

O que ocorreu nesta semana foi a interrupção de três linhas que trazem a energia de Itaipu ao Sudeste, acarretando o desligamento de todas as turbinas da usina e causando o desligamento de várias outras linhas em cascata. Daí a propagação do blecaute ter atingido tantas cidades. O efeito é como uma série de pedras de dominó que caem uma por cima da outra.

O desligamento das linhas em sobretensão é correto, pois as protege e evita danos a equipamentos e perdas de transformadores por sobrecarga. Portanto, o desligamento automático das linhas de transmissão é inevitável em certos casos críticos como o de agora. Os efeitos seriam muito piores se o desligamento não ocorresse.

No entanto, algumas questões ainda precisam ser respondias. A primeira delas é o que causou a sobrecarga. Uma hipótese aventada é que raios tenham causado tudo isso. Três linhas sofreram colapso, embora todas sejam protegidas por para-raios, que são fios paralelos ao longo das linhas. Talvez uma delas tenha sido atingida, a sobretensão tenha se propagado indevidamente para dentro da subestação em que as outras também tenham sido afetadas. É uma hipótese.

Como evitar a repetição de blecautes? Não há sistema tecnológico com 0% de falhas. O que pode ser feito é minimizá-las, tanto na frequência de ocorrências desse tipo como na gravidade delas. Eliminar o uso da transmissão de longa distância seria uma bobagem, pois o Brasil é uma Arábia Saudita hidrelétrica. Integrando em um longo tempo a energia que se pode obter do potencial hidrelétrico brasileiro, o resultado é maior que a energia do petróleo do pré-sal. O sistema interligado é inteligente, pois otimiza o uso da geração hidrelétrica, complementada por outras fontes.

Uma proposta que tem sido recentemente estudada em todo o mundo é o de redes elétricas inteligentes, ou seja, fazer uma gestão melhor das redes para diminuir incertezas, evitar problemas de pico de tensão e falhas, com um sistema de controle ponto a ponto ao longo das redes.

Nos Estados Unidos, Nova York sofreu um blecaute em 2003 que, sob certos aspectos, foi mais grave. Há poucos meses, o professor Pravin Varaiya, da Universidade da Califórnia, em Berkeley, esteve no Programa de Planejamento Energético da Coppe para participar de um seminário sobre essas redes inteligentes de energia elétrica. Mas os estudos ainda precisam avançar, inclusive para prevenir vulnerabilidades como o acesso indevido à rede por hackers.

O que se mostrou vulnerável aqui no nosso caso foi a enorme extensão da área atingida e a grande população que sofreu as consequências, pois não se conseguiu ilhar a propagação do efeito para circunscrever suas consequências a uma região menor. É necessário apurar os fatos para corrigir as falhas e aperfeiçoar o sistema.


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