San Juan se prepara para receber presidentes do Mercosul. Foto Roberto Cordeiro
O estremecimento das relações entre a Colômbia e a Venezuela deve dominar parte da reunião dos presidentes de país que integram o Mercosul ou que são partes deste bloco econômico da América do Sul. A reunião que acontece em San Juan (Argrntina), entre os dias 2 e 3 de agosto, é vista como oportunidade para arrefecer os ânimos entre os dois países. O presidente Lula, que tem acompanhado o tema, deve desembarcar na noite desta segunda-feira (2/8), e ser recebido pela presidente da Argentina, Cristina Kirchner, e pelo ex-presidente Néstor Kirchner, atualmente comanda a Unasul (fórum que tentou selar a paz entre os vizinhos).
Toda mobilização no campo político se dá porque o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, deve participar da reunião de cúpula do Mercosul. Seria uma oportunidade de os chefes de Estado tomarem conhecimento dos argumentos de Chávez sobre o conflito. Além do presidente lula e do casal Kirchner, estão previstas as participações dos presidentes José Mujica (Uruguai), Fernando Lugo (Paraguai), Evo Morales (Bolívia) e Sebástian Piñera (Chile). Na reunião são esperados representantes do México, Colômbia, Peru, Equador e Egito – paíse que deve fechar acordo de cooperação econômica com o Mercosul.
Na pauta econômica do encontro, de acordo com o Ministério das Relações Exteriores do Brasil, os temas principais que vão figurar são a eliminação da dupla cobrança da Tarifa Externa Comum e o Código Aduaneiro do Mercosul. A reunião também tratará dos avanços no Parlamento do Mercosul e a concessão de preferências tarifárias ao Haiti.
Ainda segundo o MRE, no contexto da Cúpula, deverão ser aprovados projetos financiados pelo Fundo para a Convergência Estrutural do Mercosul (FOCEM), tais como a construção de estrada entre Concepción e Puerto Vallemi, no Paraguai; a implantação de linhas de transmissão elétrica na Argentina, no Paraguai e no Uruguai; e a instalação da Biblioteca da Universidade Federal da Integração Latino-Americana, bem como do Instituto Mercosul de Estudos Avançados.
Já na Sessão Ampliada do Conselho Mercado Comum, estarão presentes, além dos ministros das Relações Exteriores, os ministros da Justiça e do Interior dos Estados Partes do Mercosul e Estados Associados, com o objetivo de discutir questões relativas à segurança regional, à circulação de pessoas e à cooperação jurídica entre os países do Bloco. Está prevista a assinatura do Acordo para a Criação de Equipes Conjuntas de Investigação e Protocolo de Integração Educativa e Reconhecimento de Estudos de Nível Primário e Secundário.
Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai deverão firmar também o Acordo sobre o Sistema Aquífero Guarani, em negociação desde 2004. Ao final da Cúpula, a Argentina transmitirá a presidência de turno do Mercosul para o Brasil, que a ocupará até dezembro de 2010.
Nas últimas semanas, as autoridades de San Juan, província situada a 1.140 quilômetros e Buenos Aires e na fronteira com o Chile, se mobilizaram para os preparativos da XXXIX Reunião do Conselho do Mercado Comum (CMC) e Cúpula de Presidentes dos Estados Partes do Mercosul e Estados Associados. O governador de SanJuan, José Luís Gioja, disse que a realização da conferência é o evento mais importante para os sanjuaninos. Ele cedeu a Casa de Governo para o encontro bilateral entre os presidentes Lula e Cristina Kirchner, previsto para ocorrer na terça-feira (3/8) após a cúpula.
“Peço aos sanjuaninos que nos ajudem nessa organização. Isto é muito importante para a província desde o ponto de vista cultural, político, turístico e econômico e aumenta os esforços que temos que tomar com relação à segurança”, disse Gioja ao jornal El Zonda,
As relações brasileiras com países árabes e a importância do Brasil nas negociações de paz no Oriente Médio foram os temas centrais da entrevista coletiva concedida pelo presidente Lula à Agência Nacional de Notícias Síria e ao jornal El Watan (Síria) na quarta-feira (30/6), no gabinete provisório da Presidência da República instalado no Centro Cultural Banco do Brasil, em Brasília.
Confira abaixo os principais trechos. Para ler a íntegra da entrevista, clique aqui.
Relações com a Síria
Nós sabemos que a Síria tem um papel extremamente importante, não apenas pela posição geográfica que a Síria ocupa no mundo árabe, mas pela relação da Síria com outros governantes árabes; pelo fato de a Síria ter quase um milhão de refugiados iraquianos dentro da Síria; pelo fato de a Síria ter uma boa relação com o Hezbollah, pelo fato da Síria ter uma boa relação com o Hamas, a Síria passa a ser um país muito importante em qualquer discussão sobre a paz no Oriente Médio.
O Brasil tem uma visão de que não é nenhum privilégio de nenhum país assumir a tutela da paz no Oriente Médio mas, sim, é da responsabilidade de todos que acreditam na paz, trabalham pela paz e querem construir a paz. É por isso que eu fui a Israel, é por isso que eu fui à Palestina, é por isso que eu fui ao Irã, porque eu acho que só vai haver paz no Oriente Médio quando todos os envolvidos se sentarem em torno da mesa. Não é um acordo de amigos entre Estados Unidos e a Direção de Israel ou a Direção Palestina, porque tem mais gente envolvida, tem mais gente envolvida. Se o Hamas não estiver à mesa de negociação, se o Hezbollah não estiver à mesa de negociação, se a Síria não estiver à mesa de negociação, se o Irã não estiver à mesa de negociação, será uma relação truncada. Além do que, é preciso colocar outros países que queiram construir a paz. É assim que eu vejo a importância de construção da paz, e é por isso que eu dou muita importância ao papel estratégico que a Síria tem na região.
Relações com países árabes
Depois da viagem que nós fizemos à Síria (em 2003), o meu ministro Celso Amorim já voltou cinco vezes à Síria, e nós já fizemos dois encontros [entre os países] árabes e a América do Sul: fizemos um encontro aqui em Brasília e fizemos um encontro em Doha no ano passado. Além de melhorar as relações políticas, melhoraram muito as relações comerciais entre o Brasil e os países árabes, sobretudo porque o Brasil é um país que tem uma população árabe muito grande, sobretudo a população síria aqui. Calcula-se que nós temos por volta de dois milhões ou três milhões de descendentes de sírios aqui no Brasil.
Pois bem, hoje a relação, ela está muito, mas muito melhor. Há um processo de confiança mútua entre muitos países árabes e o Brasil. Nós já não somos mais estranhos uns aos outros. Quando veio a crise econômica, ficou provado que estava certa a atitude do Brasil de diversificar as nossas relações políticas e comerciais. O nosso comércio cresceu muito com a África, cresceu muito com os países árabes, cresceu muito com o mundo asiático, cresceu muito na América Latina, e nós ficamos menos dependentes dos Estados Unidos e menos dependentes da Europa. Embora a nossa balança comercial continue crescendo, em média, 20% com os Estados Unidos e com a Europa, o fato concreto é que ela cresceu mais com os países árabes e cresceu mais com os países africanos e com a América Latina.
Negociação com o Irã
Olhe, o que aconteceu no caso do Irã, foi um caso inusitado. Primeiro, porque nenhum dos grandes líderes que colocaram em prática as sanções contra o Irã nunca conversaram com o Irã. Eu, depois de um encontro que tive em Nova Iorque com o Ahmadinejad, cheguei ao G-20, em Pittsburgh, encontrei Obama, encontrei Gordon Brown, encontrei Sarkozy, encontrei Angela Merkel, e nenhum deles tinha conversado com o Presidente do Irã. Eu dizia para eles: como é possível nós deixarmos de exercer o nosso papel de políticos, terceirizarmos a conversa através dos nossos assessores e não exercermos o papel de liderança que o povo nos deu na eleição? Era preciso que os principais líderes pegassem o telefone, ligassem para o Ahmadinejad e o convidassem para uma reunião. Ninguém quer porque, a priori, eles dizem que não acreditam no Irã, mas o Irã também não acredita neles. Então, alguém tem que começar essa conversa. Veja, eu não tinha procuração para negociar com o Irã. A ideia surgiu na visita do Ahmadinejad ao Brasil. Eu senti que tinha um espaço de diálogo, e a Turquia também sentiu que tinha um espaço de diálogo, até porque a Turquia era muito importante, porque seria a Turquia que iria receber os 1.200 quilos de urânio do Irã.
Acordo com o Irã
O acordo que nós fizemos com o Irã é o que está na carta do Obama. Estranhamente, depois que nós fizemos o acordo, que eles deveriam chamar o Irã para conversar, eles transformaram as sanções em uma questão de honra. Por quê? Porque eles estavam prisioneiros dos seus discursos, falaram demais e não tinham como voltar atrás. Uma semana depois, o Irã manda a carta – que eles não acreditavam que o Irã fosse mandar – para o Grupo de Viena, representado pelos Estados Unidos, pela França e pela Rússia, e eles fizeram as sanções antes de ler a carta! É o absurdo do absurdo!
Eu, sinceramente, fiquei decepcionado, fiquei decepcionado. Fiquei decepcionado porque eu não tinha nenhum compromisso de fazer um acordo com o Irã. Eu tinha compromisso de pactuar com a Turquia e com o Irã o compromisso de o Irã se sentar à mesa com a Agência, e o Irã concordou. Quem não concordou foram os membros permanentes do Conselho de Segurança, que queriam punir o Irã quase por vingança. Talvez um pouco de ciúme de que o convencimento do Irã foi feito por dois países que não são membros permanentes do Conselho de Segurança.
Então, eu acho que as pessoas precisam aprender que o exercício da democracia e o diálogo são muito complicados, mas são a melhor maneira de a gente construir os acordos e os consensos.
Papel brasileiro nas negociações de paz
Veja, o Brasil sozinho pode fazer muito pouco. Ali, era preciso saber o seguinte: nós sabemos que Israel tem nos Estados Unidos o seu mais importante interlocutor. Então, nós precisamos saber agora quem será o grande interlocutor da Autoridade Palestina? Quem será o grande interlocutor dos grupos que discordam da política de paz, pelo menos do Hamas e do Hezbollah? Quem goza da confiança da Síria? Quem goza da confiança do Irã? Todas essas pessoas têm que estar em torno de uma mesa com o limite mínimo de negociação. Agora, veja: não basta tomar decisão. É preciso tomar decisão, e a ONU exigir que as decisões sejam cumpridas, porque o que tem acontecido é que muitas vezes as decisões não são cumpridas e não há nenhum instrumento de pressão para que elas sejam cumpridas.
Quando o Brasil… Veja, eu estou deixando a Presidência dentro de seis meses. Então, não é um problema do Lula, é um problema da importância do Brasil e a importância da convivência pacífica de árabes e judeus no nosso país. O país… O Brasil tem uma cultura de paz e por isso nós achamos que o Brasil pode ajudar. Agora, parece que o conflito tem donos! Então, não pode entrar… Nós fizemos a primeira reunião de Annapolis e não fizemos a segunda ainda. E não fizemos por quê? Porque alguém não quer.
A magia do Brasil
Eu acho que o grande legado que o meu governo vai deixar para o povo brasileiro é que o povo mais humilde pode chegar onde eu cheguei e fazer igual ou mais do que eu. Então, eu acho que o sucesso do governo está ligado a isso. Eu trabalho mais do que os outros, brigo mais do que os outros, viajo mais do que os outros, fiscalizo mais do que os outros, cobro mais do que os outros, porque quando eu deixar a Presidência, eu vou morar a 600 metros de onde eu saí para ser presidente, e vão estar lá os trabalhadores da Volkswagen, da Mercedes, da Ford, e os dirigentes sindicais todos, perto da minha casa, me cobrando. Então, eu acho que isso explica o acerto do nosso governo.
A primeira visita de um chefe de Estado da Síria ao Brasil reforça a parceria entre os dois países tanto no campo comercial como também diplomático, principalmente nas negociações de paz no Oriente Médio, afirmou o presidente Lula em seu discurso realizado nesta quarta-feira (30/6) durante encontro com o presidente sírio Bashar Al-Assad no Palácio Itamaraty. A vinda de Al-Saad ao Brasil “é uma viagem de descoberta e reencontro”, disse Lula, lembrando que a Síria contribuiu muito para a formação da nação brasileira.
Sua presença aqui é oportunidade para selarmos parceria lançada quando estive em Damasco em 2003. Nesses sete anos, nossas relações ganharam novas dimensões e possibilidades. A capacidade de transpor barreiras e compartilhar experiências é o impulso maior de nosso relacionamento. Os acordos que assinamos hoje dão sentido prático a esse compromisso. Temos uma aliança assentada em números sólidos. O comércio quadruplicou e hoje alcança 300 milhões de dólares.
A criação do Conselho Empresarial Brasil-Síria abre oportunidades para multiplicar o comércio e estimular os investimentos. Essa tendência é de crescimento com um sistema multilateral de comércio mais representativo dos anseios do mundo em desenvolvimento. Por isso, defendemos o fim dos entraves que impedem o avanço do processo de acessão da Síria à OMC.
Ouça aqui a íntegra do discurso:
Lula lembrou que sempre priorizou o mundo árabe nas relações internacionais, citando o lançamento da Cúpula América do Sul – Países Árabes, em 2005, para defender “uma ordem internacional mais democrática e equilibrada”. E nesse contexto, uma das prioridades é a construção da paz no Oriente Médio, afirmou o presidente brasileiro.
A construção da paz no Oriente Médio é um dos pilares desse projeto do qual o Brasil quer ser parceiro. Mas essa é uma responsabilidade de todos. Esse conflito transcende as dimensões regionais. Afeta o mundo inteiro. Recusamos a tese de que o Oriente Médio está fadado ao conflito, de que seus filhos estão condenados a reviver a irracionalidade da guerra. Não haverá reconciliação verdadeira se houver vencedores e vencidos. Temos urgência em ver a região pacificada, com todos seus povos vivendo em harmonia.
Para Lula, a Síria é “um sócio indispensável na busca da pacificação” e “tem que ser ouvida e envolvida nas grandes discussões sobre o futuro do Oriente Médio”. O presidente brasileiro defendeu o princípio de “terra por paz”, para assegurar a devolução das colinas de Golã à Síria e também um estado Palestino “independente, soberano, coeso e economicamente viável”, que possa conviver “em segurança e dignidade” com Israel.
Isso só será possível com unidade. Contamos com a Síria para ajudar a alcançar uma verdadeira reconciliação entre palestinos.
Ao anunciar nesta quinta-feira (22/4) que o ministro Celso Amorim (Relações Exteriores) viaja hoje a Teerã para preparar sua visita ao Irã em maio, o presidente Lula afirmou que está confiante num acordo do país persa com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e que dirá ao mundo e ao Irã que “o limite é manter a paz. Queremos ter um só discurso, uma só voz e uma só paz”.
“O Brasil defende a tese que o Irã pode produzir energia nuclear para fins pacíficos. O Brasil defende para o Irã o mesmo que está na sua Constituição”, assegurou o presidente durante entrevista à imprensa após almoço com o presidente do Líbano, Michel Sleiman, no Palácio Itamaraty. Ao ser perguntado se sua biografia poderia ficar manchada devido à posição adotada em relação ao Irã, Lula rebateu: “O risco maior seria eu me omitir.”
Ouça a íntegra da entrevista:
Sobre as garantias que o Irã oferece ao mundo de que não usará a energia nuclear para outros fins que não os pacíficos, o presidente Lula afirmou que isso estaria firmado em documento, lembrando ainda que outras potências, como China, Estados Unidos e Rússia, também produzem energia nuclear mas não asseguram seu uso exclusivo para fins pacíficos.
“É por isso que estamos fazendo esforço para tentar uma saída negociada entre o Irã e a Conselho de Segurança das Nações Unidas”, disse.
Lula também falou sobre o leilão da usina Belo Monte, que será construída no rio Xingu, no Pará:
Eu esses dias fiquei analisando as notícias sobre Belo Monte. Às vezes compreendia e às vezes não compreendia. Faz 30 anos que se critica todos os governos por não fazer Belo Monte. Todos os governos que vieram antes de mim foram criticados porque não fizeram a usina. Nós conseguimos no maior processo de democratização possível, derrotamos liminares, e agora, o argumento dos contra é dizer que o preço foi barato. Achei fantástico. De repente a menor oferta ganha e estão dizendo que foi empresa pequena. Há um imenso equívoco. É preciso que as pessoas conheçam o projeto.
A boa relação que o Brasil tem com todos os países e facções políticas do Oriente Médio torna o País um interlocutor importante no processo de paz na região, afirmou o presidente Lula em seu programa de rádio Café com o Presidente desta segunda-feira (22/3), no qual fez uma avaliação positiva da viagem da semana passada a Israel, territórios palestinos e Jordânia.
Não é que o Brasil queira se meter na discussão. É que nós estamos compreendendo que as pessoas e os países que estão envolvidos na questão da crise do Oriente Médio estão percebendo que o Brasil pode ajudar, pela boa relação que o Brasil mantém com todos os países e com todas as facções políticas do Oriente Médio.
A viagem ao Oriente Médio também serviu para ampliar as relações comerciais brasileiras na região, discutindo acordos do Mercosul com palestinos e jordanianos nos mesmos moldes do firmado com israelenses. No entanto, frisou Lula, o desenvolvimento econômico depende do acordo de paz. “Somente a paz é que pode permitir que haja desenvolvimento econômico, distribuição de renda e justiça social.”
O presidente Lula afirmou que tanto israelenses como palestinos querem a ajuda do Brasil para conversar com interlocutores com os quais eles próprios têm dificuldades de se relacionar. O Brasil defende a tese de que o processo de paz deveria ser estabelecido pela ONU, por meio de demarcação de fronteiras, delimitação de parâmetros para o acordo e a defesa do cumprimento do acordo.
Sem a ONU, afirma Lula, existe o vácuo: “todo mundo fala sobre a crise do Oriente Médio, mas ninguem resolve”.
Mas ainda assim, o presidente brasileiro afirma estar otimista:
Eu sempre estou otimista porque eu não acredito em coisas impossíveis. Eu acredito em coisas difíceis e, para resolver as coisas que são difíceis, a política precisa estabelecer política de diálogo, de conversações, de entendimento. Não existe nada, nada neste mundo que não seja, eu diria, consertado. Nós temos um problema, às vezes até passional entre palestinos e israelenses. E eu acho que o Brasil, com a sua formação política, com a sua história, com a experiência pacifista do Brasil, a gente pode dar uma contribuição enorme para a paz no Oriente Médio.
E aí, meu caro, eu sei que tem gente que acha que “ah, mas o Brasil não deve se meter porque o Brasil não entende do assunto, porque o Brasil é pequeno”, aqueles que sempre acham que o Brasil não pode nada. E como eu acho que o Brasil pode, e o Brasil pode conseguir, eu estou convencido de que o Brasil não pode voltar atrás. Nós precisamos conversar com iranianos, com sírios, com Israel, com palestinos, com o Hamas, com o Hezbolah. Com que tiver problema com conflito no Oriente Médio, o Brasil tem que conversar e tentar ajudar a encontrar uma solução para que a gente viva em paz, definitivamente, no Oriente Médio.
(Entrevista concedida pelo ministro Celso Amorim em Amã, na Jordânia. Vídeo: Ricardo Stuckert/PR)
O Irã tem grande influência no Oriente Médio e pode exercê-la de forma positiva para fazer com que grupos como Hamas e Hezbollah troquem a força pelo diálogo e aceitem um acordo de paz na região, afirma o ministro Celso Amorim em entrevista exclusiva concedida ao Blog do Planalto. “Acho que entrar no diálogo já significa modificar certos comportamentos. É isso que esperamos que possa ocorrer: ao serem chamados para um diálogo, esses grupos também mudem seu comportamento. Se não houver essa mudança, as soluções ficam bem mais problemáticas.”
A influência iraniana e a necessidade de dar garantias à comunidade internacional de que seu programa nuclear será usado de forma pacífica são as duas principais discussões a serem abordadas pelo presidente Lula na viagem que fará ao país em maio. Na questão nuclear, Amorim avalia que é importante reconhecer o direito do Irã desenvolver um programa nuclear pacífico mas frisou que a comunidade internacional precisa receber garantias firmes de que esse programa não será desviado para fins militares.
Chegar a um acordo aqui (nesse tema nuclear) é difícil, mas não impossível. O Brasil está empenhado para encontrar a saída. Melhor do que ficar trabalhando sobre hipóteses que muitas vezes não se confirmam, como foi no caso do Iraque -- e descobrir isso depois que 200 mil pessoas morreram.
O ministro Celso Amorim afirma que o Brasil tem muito a contribuir com a questão do Oriente Médio, porque é um País que inspira confiança:
O que o Brasil diz é bem recebido, as pessoas falam com o Brasil com uma franqueza, que dificilmente falam com outros interlocutores, não tem medo de falar com ele. Essa confiança é, digamos, a mercadoria mais importante numa negociação de paz, o Brasil traz consigo. Isso é o grande trunfo que o Brasil tem.
Isso ficou claro durante a passagem do presidente Lula por Israel e Palestina, quando foi aplaudido por representantes políticos dos dois países sempre dizendo mensagens verdadeiras, afirma Amorim. “Ele não falou para agradar os israelenses de um lado e os palestinos do outro. Em Israel ele criticou os assentamentos (em Jerusalém Oriental), mas na Palestina falou que é preciso respeitar os direitos de Israel”.
Para Amorim, a injeção de novos ares nas negociações, com a inclusão de novos interlocutores, é saudável para o processo e o momento não poderia ser melhor. As críticas dos Estados Unidos aos assentamentos israelenses é um “momento crucial”, avalia o ministro.
Esses problemas que ocorreram agora talvez obriguem as partes, e sobretudo neste caso Israel, a pensarem bastante no que é necessário fazer para garantir que esse processo de paz continue.
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