Viagens internacionaisDurante sua visita a Doha (Catar), realizada sábado (15/5), o presidente Lula concedeu entrevista exclusiva à rede de televisão Al Jazeera na qual falou sobre a infância, a educação que recebeu dos pais, sua entrada na política na década de 1970, o sucesso de seu governo, a política externa brasileira e o relacionamento com os países vizinhos da América do Sul, entre outros temas.

Confira abaixo alguns dos principais pontos da entrevista, que foi veiculada no programa Talk To Al Jazeera.

Ouça aqui o áudio da íntegra da entrevista:

Para ler a transcrição, clique aqui.

Infância

Eu acho que essa minha experiência de vida forjou a concepção que eu tenho hoje, como Presidente da República. Embora eu tenha consciência de que sou o presidente de 190 milhões de brasileiros, eu tenho consciência de que como chefe de Estado, eu tenho que priorizar os mais pobres, os mais necessitados, que são as pessoas que mais precisam do Estado. Com pouco dinheiro, você ajuda muita gente pobre e, às vezes, com muito dinheiro, você não contenta uma pessoa muito rica. Então, é uma questão de definição. Eu fui formado assim, depois aprendi no sindicato, e eu tento, na Presidência da República, retratar um pouco daquilo que eu vivi na minha vida.

Entrada na política

Eu, em [19]78, não gostava de política e não gostava de quem gostava de política. Aí, o governo militar tentou fazer uma lei que proibia que professor fizesse greve, que bancário fizesse greve, quem trabalhava em posto de gasolina enchendo tanque não podia fazer greve. Aí, eu fui a Brasília conversar com os deputados. Chegando em Brasília, eu descobri que não tinha nenhum deputado trabalhador. Aí eu falei: bom, nós temos que criar um partido. E aí começamos a trabalhar a criação do Partido dos Trabalhadores que, graças a Deus, em pouco tempo virou o maior partido de esquerda da América Latina.

Sucesso como presidente

Olha, eu acho que nós estamos colhendo o resultado de um trabalho sério que nós estamos fazendo. Quando, no dia 10 de dezembro de 2002 – eu já estava eleito presidente da República –, eu fui à Casa Branca conversar com o presidente Bush, e ele estava obsessivo com a Guerra do Iraque. Eu disse ao presidente Bush: a minha preocupação, Presidente, não é o Iraque. A minha preocupação é a fome do meu povo. Eu tenho mais de 50 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza. Como é que eu vou me preocupar com o Iraque?

Bem, o dado concreto é que hoje, passados sete anos, nós elevamos 31 milhões de brasileiros à classe média e tiramos 24 milhões de brasileiros da extrema pobreza. Essa é uma coisa muito importante para mim, me deixa muito feliz, e eu acho que há o reconhecimento do mundo, porque nós vamos cumprir todas as Metas do Milênio bem antes do prazo. Qual é a coisa importante? É que eu não sou um homem de ficar procurando encrenca, eu não gosto de encrenca. Eu quero gastar a minha energia tentando pensar numa coisa positiva, tentando pensar em ajudar alguém, tentando construir a paz. Não é possível você governar procurando inimigo, querendo uma guerra. Você tem que governar para o seu povo, pensando em fazer o melhor e tentando dialogar com todo mundo.

Então, eu acho que nós vamos deixar no Brasil um legado de comportamento republicano que o Brasil não conhecia: tratar todo mundo com respeito – os líderes internacionais – mas também exigir um tratamento respeitoso, e não um tratamento de segunda classe.

Política externa brasileira

Olha, eles estão falando isso porque, no dia 27 de janeiro de 2003, eu fui a Davos. Eu saí do Fórum Social, em Porto Alegre, no Brasil, e fui a Davos, e, na volta, eu disse ao meu ministro de Relações Exteriores: eu acho que nós temos que mudar a geografia comercial do mundo. Não é possível um país, do tamanho do Brasil, ficar dependendo apenas de dois grandes blocos: de um lado os Estados Unidos, de outro lado a Europa. Nós precisamos diversificar as nossas relações comerciais. Priorizamos a América Latina, priorizamos a África, priorizamos o Oriente Médio. Eu visitei sete… oito Países Árabes e visitamos, também, uma parte do Mundo Asiático. O que aconteceu, de fato? Com o Mundo Árabe, de 2005 para cá, a nossa balança comercial cresceu cinco vezes. O Brasil era muito dependente da União Europeia e dos Estados Unidos, e eu achava que, pela dimensão do Brasil e pela potencialidade do Brasil, nós tínhamos que diversificar e não ficar dependendo de ninguém, mas ter boas relações com todo mundo. Hoje a América Latina é nosso maior parceiro comercial; hoje a China é o nosso maior parceiro comercial individual. Na África, nós temos hoje um fluxo de balança comercial acima de US$ 20 bilhões, e antes a gente não tinha nada, porque a elite política brasileira só olhava para a Europa e para os Estados Unidos, para a Europa… Não via nem a América do Sul, não via a África e não via o Oriente Médio. As autoridades brasileiras que viajaram para o Líbano, foi em 1876. Não é possível!

Reforma do Conselho de Segurança da ONU

Olhe, eu estou há oito anos brigando por isso. É engraçado, é engraçado: todo mundo é favorável ao Brasil, todo mundo. Todo mundo concorda que o Brasil deva ter uma cadeira no Conselho de Segurança, mas ninguém quer abrir mão do poder que tem. É como se fosse um baile, em que tem cinco pessoas, numa festa bonita, e não querem deixar os outros entrarem. Veja, a geografia política de 2010 é muito diferente da geografia política de 1945, muito diferente. É só olhar o mapa da Rússia para ver como mudou. É só olhar o que aconteceu com a China, o que aconteceu com a Índia, o que aconteceu com o Brasil, é só olhar para o continente africano. Então, o que nós queremos? Que o mundo esteja representado no Conselho de Segurança. Não importa que seja um ou que sejam três da África. Não importa que seja um ou dois da América Latina. Como é que explica a Índia não estar no Conselho de Segurança? Como é que explica a China estar e o Japão não estar? Então, o que é que nós queremos? É abrir o clube e permitir que outras pessoas entrem. Você imagina, hoje, se tivesse uns dois ou três países no Conselho de Segurança como membros permanentes, que não têm bomba nuclear. Seria muito mais fácil negociar os acordos sobre não proliferação de armas nucleares.

Relação com os vizinhos sulamericanos

Eu trabalho muito com a América do Sul porque nós temos fronteira com dez países, só não temos fronteira com o Chile e com o Equador. Então, o Brasil, que é a maior economia, [tem] mais desenvolvimento econômico, [tem] mais tecnologia, [tem] mais população, o Brasil tem mais responsabilidade. Portanto, nós temos que cuidar com carinho. E nós trabalhamos para tentar tirar proveito da similaridade que existe entre os países da América Latina, pela proximidade de língua. Tenho tentado trazer o México mais para a América do Sul, para que a economia do México não fique apenas dependendo de uma potência econômica excepcional, como os Estados Unidos ou como o Canadá, que têm que se espraiar para ajudar os países da América Central. No fundo, no fundo, o que eu quero é que a gente tenha um continente mais justo e mais democrático.

Papel do Brasil na nova ordem mundial

Olha, eu, sinceramente, acho que vai depender muito do comportamento de quem estiver dirigindo o Brasil. Você sabe que em política as pessoas não reconhecem você com líder, ou seja, você tem que ocupar o seu espaço, você tem que lutar, você tem que brigar. Eu fico muito feliz quando eu vejo as revistas do mundo inteiro enaltecendo a seriedade da política econômica brasileira, a seriedade do crescimento brasileiro, como nós enfrentamos a crise econômica, o controle que o Banco Central brasileiro tem do sistema financeiro brasileiro, eu fico muito feliz, não pense que eu não fico, eu fico muito feliz.

Desmatamento na Amazônia

Nós assumimos o compromisso, em Copenhagen, de reduzir o desmatamento da Amazônia em 80%, até 2020. Nós assumimos o compromisso de diminuir o gás de efeito estufa em 39%. Foi a melhor proposta feita em Copenhagen. E não pedi dinheiro para ninguém, não, vamos fazer por responsabilidade. Então, veja, o Brasil tem noção exata de que é o país que tem a matriz energética mais limpa do mundo, de que tem o combustível, para os nossos carros, mais limpo do mundo.

Belo Monte

Esse projeto está sendo discutido há 30 anos. Nós diminuímos o lago em 60 %, são R$ 3,5 bilhões para cuidar da questão ambiental e para cuidar da questão social. É por isso que nós vamos fazer a usina de Belo Monte, porque nós não vamos jogar fora a oportunidade de construir a hidrelétrica mais moderna e mais limpa do mundo. O problema é que, às vezes, as pessoas se acham no direito de dar palpites sobre coisas que não conhecem.

O Brasil, o Brasil, veja, o Brasil tem 190 milhões de habitantes. E nós, nós vamos cuidar agora, no dia 2 de junho eu tenho uma reunião com a comunidade indígena, no Brasil, para discutir Belo Monte, porque nós já fizemos todas as reuniões públicas possíveis, e nós vamos garantir que as pessoas que tiverem que mudar de local vão ser tratadas condignamente, e a floresta será respeitada. Nós estamos, agora, criando um sistema de construir hidrelétrica no Brasil, chamado hidrelétrica-plataforma. Nós iremos construí-la, iremos fechar a mata e, para chegar lá, só de helicóptero, para evitar que haja crescimento de cidade em volta da floresta.

Então, nós queremos dar exemplo ao mundo sobre energia limpa. Nessa área, ninguém ensina o Brasil. Ou é isso ou é termelétrica a carvão, ou é termelétrica a óleo diesel, ou é energia nuclear. Entre tudo isso, eu prefiro as hidrelétricas, limpas.

Pré-sal e acidente no Golfo do México

Há muita preocupação. Eu, inclusive, já disse ao Presidente da Petrobras, primeiro, oferecer toda a ajuda que a gente puder oferecer aos Estados Unidos para ajudar a conter o vazamento de óleo. Segundo, para que a gente faça uma reparação na manutenção da Petrobras, para que a gente não permita que aconteça o que aconteceu no Golfo. Você sabe que tem problema, porque tem que fazer um novo furo, um novo poço e tamponar lá por baixo. Isso demora. Então, eu acho que esse acidente que aconteceu nos Estados Unidos deve alertar todas as empresas de petróleo do mundo a serem mais responsáveis, porque o prejuízo será enorme para a Humanidade na questão ambiental.

Copa do Mundo de 2014

Olhe, eu pedi para o meu Ministro do Esporte responder à Fifa. A Fifa fique tranquila, não venha com aquela mentalidade eminentemente europeia, sem conhecer a América do Sul e [sem] conhecer o Brasil. Nós vamos fazer uma Copa do Mundo melhor do que eles fizeram, mais alegre do que eles já fizeram, só corremos o risco de o Brasil ser campeão outra vez! Mas nós estamos preparados para a Copa do Mundo e preparados para as Olimpíadas. Nós sabemos o que isso significa para o Brasil, nós sabemos o que significa para a imagem do Brasil.

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