As relações brasileiras com países árabes e a importância do Brasil nas negociações de paz no Oriente Médio foram os temas centrais da entrevista coletiva concedida pelo presidente Lula à Agência Nacional de Notícias Síria e ao jornal El Watan (Síria) na quarta-feira (30/6), no gabinete provisório da Presidência da República instalado no Centro Cultural Banco do Brasil, em Brasília.

Confira abaixo os principais trechos. Para ler a íntegra da entrevista, clique aqui.

Relações com a Síria

Nós sabemos que a Síria tem um papel extremamente importante, não apenas pela posição geográfica que a Síria ocupa no mundo árabe, mas pela relação da Síria com outros governantes árabes; pelo fato de a Síria ter quase um milhão de refugiados iraquianos dentro da Síria; pelo fato de a Síria ter uma boa relação com o Hezbollah, pelo fato da Síria ter uma boa relação com o Hamas, a Síria passa a ser um país muito importante em qualquer discussão sobre a paz no Oriente Médio.

O Brasil tem uma visão de que não é nenhum privilégio de nenhum país assumir a tutela da paz no Oriente Médio mas, sim, é da responsabilidade de todos que acreditam na paz, trabalham pela paz e querem construir a paz. É por isso que eu fui a Israel, é por isso que eu fui à Palestina, é por isso que eu fui ao Irã, porque eu acho que só vai haver paz no Oriente Médio quando todos os envolvidos se sentarem em torno da mesa. Não é um acordo de amigos entre Estados Unidos e a Direção de Israel ou a Direção Palestina, porque tem mais gente envolvida, tem mais gente envolvida. Se o Hamas não estiver à mesa de negociação, se o Hezbollah não estiver à mesa de negociação, se a Síria não estiver à mesa de negociação, se o Irã não estiver à mesa de negociação, será uma relação truncada. Além do que, é preciso colocar outros países que queiram construir a paz. É assim que eu vejo a importância de construção da paz, e é por isso que eu dou muita importância ao papel estratégico que a Síria tem na região.

Relações com países árabes

Depois da viagem que nós fizemos à Síria (em 2003), o meu ministro Celso Amorim já voltou cinco vezes à Síria, e nós já fizemos dois encontros [entre os países] árabes e a América do Sul: fizemos um encontro aqui em Brasília e fizemos um encontro em Doha no ano passado. Além de melhorar as relações políticas, melhoraram muito as relações comerciais entre o Brasil e os países árabes, sobretudo porque o Brasil é um país que tem uma população árabe muito grande, sobretudo a população síria aqui. Calcula-se que nós temos por volta de dois milhões ou três milhões de descendentes de sírios aqui no Brasil.

Pois bem, hoje a relação, ela está muito, mas muito melhor. Há um processo de confiança mútua entre muitos países árabes e o Brasil. Nós já não somos mais estranhos uns aos outros. Quando veio a crise econômica, ficou provado que estava certa a atitude do Brasil de diversificar as nossas relações políticas e comerciais. O nosso comércio cresceu muito com a África, cresceu muito com os países árabes, cresceu muito com o mundo asiático, cresceu muito na América Latina, e nós ficamos menos dependentes dos Estados Unidos e menos dependentes da Europa. Embora a nossa balança comercial continue crescendo, em média, 20% com os Estados Unidos e com a Europa, o fato concreto é que ela cresceu mais com os países árabes e cresceu mais com os países africanos e com a América Latina.

Negociação com o Irã

Olhe, o que aconteceu no caso do Irã, foi um caso inusitado. Primeiro, porque nenhum dos grandes líderes que colocaram em prática as sanções contra o Irã nunca conversaram com o Irã. Eu, depois de um encontro que tive em Nova Iorque com o Ahmadinejad, cheguei ao G-20, em Pittsburgh, encontrei Obama, encontrei Gordon Brown, encontrei Sarkozy, encontrei Angela Merkel, e nenhum deles tinha conversado com o Presidente do Irã. Eu dizia para eles: como é possível nós deixarmos de exercer o nosso papel de políticos, terceirizarmos a conversa através dos nossos assessores e não exercermos o papel de liderança que o povo nos deu na eleição? Era preciso que os principais líderes pegassem o telefone, ligassem para o Ahmadinejad e o convidassem para uma reunião. Ninguém quer porque, a priori, eles dizem que não acreditam no Irã, mas o Irã também não acredita neles. Então, alguém tem que começar essa conversa. Veja, eu não tinha procuração para negociar com o Irã. A ideia surgiu na visita do Ahmadinejad ao Brasil. Eu senti que tinha um espaço de diálogo, e a Turquia também sentiu que tinha um espaço de diálogo, até porque a Turquia era muito importante, porque seria a Turquia que iria receber os 1.200 quilos de urânio do Irã.

Acordo com o Irã

O acordo que nós fizemos com o Irã é o que está na carta do Obama. Estranhamente, depois que nós fizemos o acordo, que eles deveriam chamar o Irã para conversar, eles transformaram as sanções em uma questão de honra. Por quê? Porque eles estavam prisioneiros dos seus discursos, falaram demais e não tinham como voltar atrás. Uma semana depois, o Irã manda a carta – que eles não acreditavam que o Irã fosse mandar – para o Grupo de Viena, representado pelos Estados Unidos, pela França e pela Rússia, e eles fizeram as sanções antes de ler a carta! É o absurdo do absurdo!

Eu, sinceramente, fiquei decepcionado, fiquei decepcionado. Fiquei decepcionado porque eu não tinha nenhum compromisso de fazer um acordo com o Irã. Eu tinha compromisso de pactuar com a Turquia e com o Irã o compromisso de o Irã se sentar à mesa com a Agência, e o Irã concordou. Quem não concordou foram os membros permanentes do Conselho de Segurança, que queriam punir o Irã quase por vingança. Talvez um pouco de ciúme de que o convencimento do Irã foi feito por dois países que não são membros permanentes do Conselho de Segurança.

Então, eu acho que as pessoas precisam aprender que o exercício da democracia e o diálogo são muito complicados, mas são a melhor maneira de a gente construir os acordos e os consensos.

Papel brasileiro nas negociações de paz

Veja, o Brasil sozinho pode fazer muito pouco. Ali, era preciso saber o seguinte: nós sabemos que Israel tem nos Estados Unidos o seu mais importante interlocutor. Então, nós precisamos saber agora quem será o grande interlocutor da Autoridade Palestina? Quem será o grande interlocutor dos grupos que discordam da política de paz, pelo menos do Hamas e do Hezbollah? Quem goza da confiança da Síria? Quem goza da confiança do Irã? Todas essas pessoas têm que estar em torno de uma mesa com o limite mínimo de negociação. Agora, veja: não basta tomar decisão. É preciso tomar decisão, e a ONU exigir que as decisões sejam cumpridas, porque o que tem acontecido é que muitas vezes as decisões não são cumpridas e não há nenhum instrumento de pressão para que elas sejam cumpridas.

Quando o Brasil… Veja, eu estou deixando a Presidência dentro de seis meses. Então, não é um problema do Lula, é um problema da importância do Brasil e a importância da convivência pacífica de árabes e judeus no nosso país. O país… O Brasil tem uma cultura de paz e por isso nós achamos que o Brasil pode ajudar. Agora, parece que o conflito tem donos! Então, não pode entrar… Nós fizemos a primeira reunião de Annapolis e não fizemos a segunda ainda. E não fizemos por quê? Porque alguém não quer.

A magia do Brasil

Eu acho que o grande legado que o meu governo vai deixar para o povo brasileiro é que o povo mais humilde pode chegar onde eu cheguei e fazer igual ou mais do que eu. Então, eu acho que o sucesso do governo está ligado a isso. Eu trabalho mais do que os outros, brigo mais do que os outros, viajo mais do que os outros, fiscalizo mais do que os outros, cobro mais do que os outros, porque quando eu deixar a Presidência, eu vou morar a 600 metros de onde eu saí para ser presidente, e vão estar lá os trabalhadores da Volkswagen, da Mercedes, da Ford, e os dirigentes sindicais todos, perto da minha casa, me cobrando. Então, eu acho que isso explica o acerto do nosso governo.


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