Thu 30 Sep 2010
A lição do Golfo do México nos tornou mais exigentes em relação ao Pré-sal
Posted by jorge under Petrobrás, desenvolvimento, meio ambiente, petróleo, pré-sal
Numa extensa entrevista concedida à revista The Economist, publicada na edição que nesta semana, o presidente Lula falou sobre a força da Petrobras na exploração de petróleo na camada pré-sal e descartou comparações com o acidente ocorrido no Golfo do México, afirmando que o caso serviu de lição para o Brasil ser ainda mais exigente em relação aos procedimentos de segurança.
Porque eu aprendi, aqui no Brasil, que o barato sai caro. Ela tentou, da forma mais barata possível e mais rápida, tirar petróleo, sem nenhum cuidado elementar que ela deveria ter tido. Aqui no Brasil nós somos muito mais rígidos e a gente também aproveitou a lição do que aconteceu no Golfo para ser muito mais exigente.
Durante a entrevista, Lula falou também sobre eleições, economia e programas sociais. Explicou à revista britânica os motivos que impediram o avanço das reformas trabalhista, tributária e política nos últimos anos, bem como os obstáculos que um governante enfrenta para tocar uma obra no Brasil.
Para ler a íntegra, clique aqui.
Ouça o áudio da entrevista:
Abaixo, trechos da entrevista concedida pelo presidente Lula.
25 anos sem obras
É difícil fazer obra também por conta… pelo fato de o Brasil ter ficado 25 anos sem fazer absolutamente quase nenhuma obra de infraestrutura. Eu digo sempre o seguinte: o último momento de investimento em infraestrutura foi no governo Geisel, que se endividou demais e, por conta da dívida, o Brasil, que fez uma dívida em dólar quando os juros eram 3%, e o Paul Volcker, para resolver o problema do déficit fiscal americano, elevou o juro para 21%, e, portanto, a dívida ficou impagável, e nós passamos esses outros 20 anos tentando resolver o problema da dívida. Foram duas décadas e meia em que o Brasil não tinha capacidade de fazer nenhum investimento em infraestrutura. Então, foi desmontado… Só para você ter ideia, nós tínhamos, em 1989, 1989, nós tínhamos, no Brasil, por volta de 50 mil escritórios de engenharia de projetos. Quando eu tomei posse, nós tínhamos apenas 8 mil escritórios de engenharia. Foi desmontado. As universidades não formavam mais engenheiros. Os engenheiros que eram formados iam ser analistas do sistema financeiro, não iam trabalhar mais de [como] engenheiros. E tudo isso nós estamos recuperando, para que a indústria brasileira volte a adquirir a capacidade de fazer as grandes obras que o Brasil precisa.
Reforma trabalhista
Eu reuni os empresários, reuni os trabalhadores e reuni o governo, coloquei na mesa e falei: vocês me apresentem uma proposta de reforma trabalhista. Porque qual é o problema no Brasil? Qual é o problema do Brasil? De um lado, você tem os empresários que falam em reforma trabalhista e querem anular todos os direitos que os trabalhadores conquistaram ao longo de tempo. É impossível. De outro lado, você tem os trabalhadores que falam que é preciso fazer reforma sindical e trabalhista, mas querem ficar com todos os direitos que estão garantidos na CLT. Ou seja, assim não é possível, não é possível. Eu criei grupo de trabalho para fazer reforma sindical, para fazer reforma trabalhista e para fazer reforma na Previdência Social. Nós conseguimos fazer a reforma na Previdência pública, mas não conseguimos fazer reforma na Previdência privada, nem na questão trabalhista. Possivelmente, porque seja um processo de amadurecimento. Essas coisas, essas coisas…
Prioridade para o próximo governo
Olha, seria presunção da minha parte dar palpite sobre a prioridade que o novo governo vai definir. Eu penso que quando terminar as eleições no dia 3 de outubro, se terminar no primeiro turno, ou se tiver segundo turno, eu penso que quem for eleito vai pensar em começar a discutir o seu governo a partir do processo eleitoral. Eu penso que qualquer que for o governo que ganhe as eleições – e eu estou convencido de que a minha candidata ganhará as eleições, estou convencido –, vai ter que dar continuidade e aperfeiçoar as coisas que estão acontecendo no Brasil. O que nós fizemos no Brasil não foi pouca coisa. O que nós fizemos no Brasil foi muita coisa e, certamente, ainda falta muito por fazer, porque isso aqui foram 500 anos de esquecimento de uma parte da população. É importante que a gente não perca nunca de vista que entre 1950 e 1980 a economia brasileira foi a economia que mais cresceu no mundo, ela cresceu, quase 30 anos, em média 7% ao ano, e essa riqueza não foi distribuída de forma justa entre a população. Então, ficou um fosso entre gente muita rica e gente muito pobre.
Papel do Estado na economia
Primeiro, o Estado tem que ser o indutor. Se não fosse o presidente Roosevelt, não existiria nos Estados Unidos o desenvolvimento no Vale do Tennessee. Ou seja, significa que o Estado tomou a iniciativa de propor que algum lugar precisaria de mais apoio do que outro. Aqui no Brasil, aqui no Brasil nós tomamos como decisão fazer com que o Estado fosse indutor de um modelo de desenvolvimento que tentasse tornar o Brasil mais equânime. O Brasil não poderia ter toda a sua… Por exemplo, na questão da cultura. Na questão da cultura, todo o dinheiro da cultura era quase para o eixo Rio-São Paulo. Ora, era preciso levar um pouco desse dinheiro para o Amazonas, para o Acre, para Pernambuco, para a Paraíba, para o Rio Grande do Norte. O dinheiro da Comunicação, o dinheiro de publicidade do governo federal era levado todo para o eixo Rio-São Paulo. Aí você tem que lembrar que tem rádio pequena no Brasil inteiro, que tem outros canais de televisão, e que nós precisamos, então, fazer com que esse dinheiro chegue a todo mundo. Esse é o papel do Estado.
Ou seja, o Estado, ele precisa governar o país para os setores que mais precisam do Estado. Tem gente que não precisa do Estado. Tem gente que pode ter plano médico, tem gente que não precisa de casa, não precisa… já mora em lugar asfaltado, com esgoto, com tratamento. Ou seja, essa pessoa não precisa do Estado. O Estado precisa garantir que ela não perca o que tem. Mas o Estado precisa atender aquela parte que menos tem. Então, é por isso que nós fizemos uma opção de induzir um desenvolvimento econômico maior nas regiões Norte e Nordeste do país, para que o Brasil possa crescer, não assim: uma região dessa altura e outra região lá embaixo, mas tentar equilibrar e todo mundo viver mais ou menos em igualdade de condições. Então, é isso que nós estamos fazendo. Então, esse é o papel do Estado, o de ser um indutor e, ao mesmo tempo, o fiscalizador.
Crise financeira mundial
A lição da crise é a lição de que o Estado tem que estar preparado, para quando for exigido ele ter capacidade de fazer intervenção. Porque você imagine uma coisa: se o presidente Bush, em julho de 2008, tivesse colocado US$ 60 bilhões no Lehman Brothers, possivelmente ele não tivesse quebrado e a gente não tivesse que ter US$ 1 trilhão, depois, injetado no mercado financeiro. Se os alemães tivessem tomado a atitude correta, no tempo certo, na crise de Grécia, a gente não teria a crise que se espalhou por outros países. Então, o Estado tem que estar preparado para tomar decisão. Eu não quero um Estado empresário. Eu não quero um Estado empresário, eu não quero um Estado com intervenção, mas eu quero um Estado com capacidade de regular e as pessoas saberem que o Estado pode fazer. As pessoas saberem que o Estado está preparado para fazer, embora não faça, possa deixar os empresários privados fazerem. Mas na hora que for necessário, para cumprir os interesses da população, o Estado tem que estar pronto. É assim que eu penso do Estado, é assim que eu penso. É um Estado indutor, um Estado fiscalizador, regulador, melhor, e um Estado que não se meta a ser um Estado empresário, mas que esteja preparado para poder fazer obra.
O papel do Brasil
Olhe, na verdade, o Brasil é um país… Por si só, ele tem um papel de liderança, pela sua grandeza, pelo seu território, pela sua população. O que nós defendemos, de fato, é que a governança mundial precisa passar por uma reforma muito forte, a governança mundial. O Conselho de Segurança, os membros permanentes não podem ser resultado de uma geopolítica de 60 anos atrás. O mundo mudou, os países mudaram, a geopolítica mundial mudou, a Guerra Fria acabou. Então, agora, o que nós precisamos é adequar o Conselho de Segurança às novas realidades. O que é que explica um país do tamanho do Brasil não estar no Conselho de Segurança? O que explica a África do Sul, ou a Nigéria ou o Egito não estarem representando o continente africano? O que explica a Índia estar fora? O que explica o Japão estar fora ou a Alemanha estar fora? Por que a China não quer ou por que a Itália não quer que a Alemanha entre? Por que não pode ter dois países da América Latina? Se você tivesse um mundo mais equilibrado representado nas Nações Unidas, como membro permanente, você teria mais respeitabilidade nas decisões. A quem interessa uma ONU enfraquecida?
A quem tem o poder de tomar decisão unilateral. Ou seja, se um pai e uma mãe não conseguem coordenar sua casa, qualquer filho se sente no direito de fazer o que bem entender, e ninguém respeita ninguém. Então, por exemplo, eu não acredito em paz no Oriente Médio, enquanto apenas os Estados Unidos sejam tutores da paz. Eu não acredito. E digo isso porque acreditei muito. Muito antes de eu ser presidente, na década de 90, eu estive com o Arafat, eu estive com o Rabin, que foi o melhor momento da construção da paz. Hoje, nós não temos nem Rabin e nem… Nem Shimon Peres tem a força que tinha antes, e menos Arafat.
Os Estados Unidos na América Latina
Acho que os Estados Unidos, muitas vezes, olham para a América Latina como olhavam nos anos 70, em que só veem luta armada. Luta armada não sei onde, luta armada… Acabou! Eu peguei o telefone, liguei para o presidente Obama e falei: Obama, você precisa convidar o Mauricio Funes para conversar com ele. Ele é uma chance de consolidar a democracia em El Salvador. Então, eu acho que os Estados Unidos teriam que ter um papel mais importante na América Latina, um papel de parceria. Quando nós fizemos a reunião em Trinidad e Tobago, toda a América do Sul com o Obama, eu achei que ali tinha começado um novo tempo, mas não aconteceu nada depois daquilo, não aconteceu nada. Eu propus ao Obama que convocasse uma reunião por ocasião da ONU, com os presidentes da América do Sul, para distensionar. As coisas não acontecem, não acontecem porque cada um tem outros afazeres.








